George P. Dvorsky, 46 anos, é bioético, trans-humanista e futurista; foi presidente do Conselho do Instituto de Ética e Tecnologias Emergentes; é o fundador e presidente do Programa de Direitos de Não-Pessoas do IEET; editor que contribui com o blog Sentient Developments e com o Gizmodo. E foi neste último site onde publicou uma lista com as 10 tecnologias surpreendentes que ele acredita que estarão disponíveis dentro do prazo de 100 anos, ou menos.

Além de todas essas áreas envolvidas, Dvorsky é ambientalista progressista, e ativista de direitos dos animais, preocupado com os impactos éticos e sociológicos de tecnologias. Ele procura promover discussões abertas para fins de educação e de previsão, e entre a ampla gama de tópicos que aborda, inclui a tecnociência, a ética, os riscos existenciais, a inteligência artificial, a busca de inteligência extraterrestre e, claro, a futurologia.

Para ele, no entanto, uma inovação não aparece nesta lista por motivos racionais: a Superinteligência artificial. Ele defende a ideia do cientista de computação I. J. Good, que apontou na década de 1960 que “a primeira máquina ultra-inteligente é a última invenção que o homem precisa fazer”.

Uma vez que a “inteligência maior do que a humana emerge em uma máquina, um desenvolvimento que poderia acontecer já nos anos 2050, todas as outras apostas estão descartadas em termos do que é tecnicamente possível”, afirma Dvorsky. Ele acredita que quando as máquinas inteligentes surgirem, elas substituirão os seres humanos como designers e engenheiros, construindo as “tecnologias dos nossos sonhos”, incluindo algumas que nem sequer havíamos pensado. Ou seja, nossa lista de tecnologias pode ser completamente diferentes nesse cenário.

Ele lista então 10 tecnologias que, por mais absurdas que pareçam, são muito possíveis e “poderiam mudar praticamente tudo”.

Realidade virtual ligada ao cérebro

Dispositivos VR portáveis como o Oculus Rift são apenas o início do que poderão se tornar. No futuro, os usuários terão a possibilidade de encontrar uma existência “verdadeiramente” em realidade alternativa. O que é necessário para isso é algo um pouco mais… invasivo. Quando chegarmos ao século 21, teremos encontrado uma maneira de criar uma experiência de realidade virtual que é indistinguível da real.

Essas experiências serão alimentadas diretamente em nosso cérebro, ignorando nossos órgãos sensoriais normais – olhos, tato, etc – para torná-las ainda mais críveis.

De fato, o cérebro (entre outras coisas) é um dispositivo de processamento sensorial. Todas as coisas que sentimos em uma base regular, seja cheiros e brilhos, etc, são encaminhados para o seu cérebro. Então, estamos realmente falando de uma “Matrix”, uma realidade virtual em todos os sentidos, indistinguível, na qual nos conectaremos através da mente.

O futurista Ray Kurzweil, autor de The Singularity is Near, explicou como isso poderia acontecer em um Q & A sobre seu livro: através de nanobots no cérebro.

Névoa útil

Concebida pelo pioneiro da nanotecnologia J. Storrs Hall, a névoa útil é um enxame de nanobots, que pode assumir a forma de praticamente qualquer objeto e mudar sua forma. Imagine uma nuvem inteligente de flocos de neve interconectados capaz de se transformar com os movimentos de qualquer coisa em torno dela, incluindo os passageiros de carros. Foi o que Hall imaginou como um sistema de segurança, um tipo de “airbag super inteligente”.

Cada nanobot (ou foglets) medirá apenas 10 mícrons de diâmetro (aproximadamente o mesmo tamanho de uma célula humana), será equipado com um minúsculo computador de bordo rudimentar para controlar suas ações (que seria controlado externamente por um sistema artificialmente inteligente) e uma dúzia de braços telescópicos que se projetam para fora na forma de um dodecaedro.

Diagrama de um foglet de 100 micrômetros.

Quando dois deles se ligam, eles formariam um circuito, permitindo a distribuição de energia e comunicações em toda a rede. O foglets não seria capaz de flutuar, mas em vez disso, formar uma estrutura de rede, chamada de octeto, quando segurando as mãos em todas as 12 direções.

Uma névoa útil funcionaria como matéria programável, capaz de se mover, envolver e transportar um objeto ou pessoa. Em uma imaginação fértil – ou com tecnologia realmente possível? – poderiam ser usadas para criar um mundo virtual em torno de uma pessoa, e até mesmo hospedar uma pessoa que realizou um upload de si mesmo nessa nuvem nano-infundida (semelhante ao que fãs de HQs podem ter lido em Transmetropolitan, obra pós-cyberpunk de Warren Ellis).

Outra sugestão na ficção científica por feita por Jim Al-Khalili. A névoa útil é usada para criar a superfície externa “camaleônica” de um TARDIS, de acordo com sua teoria no programa “How To Make A Tardis”, parte do Doctor Who Night na BBC2.

As ideias não são modestas. Hall e eutros pesquisadores acreditam que a névoa útil poderia ser fabricada em massa para ocupar toda a atmosfera de um planeta e substituir qualquer estrutura física necessária à vida humana. Edifícios virtuais poderiam ser construídos e destruídos em instantes.

Energia Solar obtida no Espaço

A humanidade precisa de energia. Essa é uma necessidade cada vez maior, mais voraz e interminável. Porém, as fontes de energia não são inesgotáveis. Mas a energia solar baseada no espaço é uma ideia que existe desde a década de 1960 e poderia resolver de uma vez por todas o problema das mudanças climáticas e as dificuldades para uma transição para adotar energia mais sustentável.

Peter Glaser propôs a ideia de satélites movidos a energia solar (SPS), que seriam células fotovoltaicas no espaço capazes de transferir energia solar sem fio para a Terra. O projeto exigia uma grande plataforma posicionada no espaço para recolher a energia e convertê-la em eletricidade. Por sua vez, essa energia seria transmitira para estações de recepção na Terra. Alguns visionários incluíram na ideia o uso de um transmissor de energia sem fio por micro-ondas.

Isso tem sido discutido desde os anos 70, mas a ideia nunca foi vista como algo rentável ou tecnologicamente viável. Porém, recentemente isso tem mudado. No ano passado, a Academia Internacional de Astronáutica publicou um relatório exaustivo sobre os benefícios da energia solar obtida no espaço, pedindo para que a comunidade internacional leve o assunto a sério. Há uma série de meios para começar, e prevê que isso será tecnicamente viável dentro de 10 a 20 anos, utilizando tecnologias que já existem.

O Sistema SBSP, uma exploração orbital japonesa funcionaria numa órbita estacionária a cerca de 22.400 milhas acima do equador, de onde transmitiria energia à Terra usando raios laser. Cada satélite visaria uma estação receptora de 1,8 milhas de largura que poderia gerar um gigawatt de eletricidade, o que é suficiente para alimentar meio milhão de casas.

Upload da mente

Na virada do século 22, muitos seres humanos poderão viver uma existência puramente digital, livre de todas as restrições biológicas. Chamado de upload de mente, ou emulação de cérebro inteiro, isso envolve a cópia meticulosa de um cérebro biológico existente. As varreduras capturariam todos os detalhes cognitivos até o nível molecular e incluiriam memórias, associações e até peculiaridades de personalidade de uma pessoa.

Futuristas não estão inteiramente certos de como o upload da mente vai acontecer, mas um passo crítico será certificar-se de que as partes importantes de um cérebro serão copiadas, particularmente aquelas ligados ao senso de identidade de uma pessoa (ou seja, o para-hipocampo e o córtex retrosplenial).

Isso pode envolver a cópia “destrutiva”, onde um cérebro existente é “desmontado”, a fim de gravar o estado cerebral de uma pessoa e suas memórias.

Alternativamente, um scanner de cérebro suficientemente poderoso poderia ser usado para “capturar” o cérebro de uma pessoa e, em seguida, levar essas informações a um computador capaz de traduzi-las em uma mente funcional. Para que uma pessoa possa funcionar “normalmente”, ela teria que receber um corpo e ambiente virtual.

A questão filosófica por trás dessa hipótese é: caso sua mente seja “copiada” para um corpo digital, sua consciência será levada junto? Ou será apenas uma inteligência atuando com suas memórias e sua personalidade, mas como um “zumbi”, que não será realmente você?

Controle do clima

É improvável que a humanidade se tornará capaz de controlar completamente o clima até o final do século atual, mas há muitas possibilidades para chegar a alguns resultados. Já estamos semeando nuvens com partículas para estimular a precipitação, e a Califórnia tem feito isso por quase 50 anos.

Durante os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, as autoridades chinesas dispararam 1.100 foguetes nas nuvens para provocar chuvas antes que as tempestades atingissem a capital. Há até mesmo esforços para disparar pulsos de laser em nuvens de trovão na esperança de extrair relâmpagos de forma controlada.

Olhando para o futuro, os engenheiros meteorológicos poderiam construir estruturas maciças em forma de parede para evitar que tornados devastadores se forem, ou construíssem conjuntos de turbinas enormes e muito fortes para sugar a energia dos furacões.

Mais radicalmente, poderíamos eventualmente construir uma máquina meteorológica para criar uma atmosfera programável. Um plano particularmente interessante descreve uma fina nuvem global de pequenos balões transparentes levantados na estratosfera, onde ela sombreia ou reflete a quantidade de luz solar que entra. Um espelho seria colocado dentro de cada balão, junto com um GSP para monitorar sua localização, um atuador para controlar sua orientação. Levado pelo hidrogênio, chegaria a cerca de 20 milhas acima da superfície da Terra. Este sistema, orientado pela IA, poderia influenciar os padrões meteorológicos em todo o mundo e transformar áreas de condições difíceis em regiões temperadas e mais habitáveis.

Montador molecular

Esqueça as impressoras 3D. Com os montadores moleculares, ou nanomontador, descrito por um inventor, pioneiro da nanotecnologia K. Eric Drexler em seu livro seminal, Engines of Creation, será possível manipular átomos individuais para construir um produto desejado. Fãs de Star Trek já devem ter visto um membro da tripulação usar um replicador para produzir uma xícara quente de chá, e isso é basicamente um montador molecular. Alguns futuristas acreditam que isso será fabricado em breve.

A máquina nanotecnológica seria de tamanho bastante reduzido capaz de organizar átomos e moléculas de acordo com instruções fornecidas. Para isso, é necessário energia, suprimento de matéria-prima (building blocks) e a programação a ser executada pelo montador.

Uma das hipóteses é a construção de um montador universal, capaz de construir qualquer objeto incluindo um outro montador. Assim, ele poderia se reproduzir várias vezes, e essa capacidade de reprodução é uma das grandes vantagens de um montador molecular e também é uma das coisas que mais assustam. Afinal, ele poderia se reproduzir descontroladamente e ameaçar vidas humanas de forma semelhante a epidemias, colonizando a terra e substituindo a humanidade.

Geoengenharia

Os efeitos das alterações climáticas são provavelmente irreversíveis. Não importa o que façamos a partir de agora até o ano de 2100, os níveis de gases do efeito estufa continuarão a aquecer o planeta. Para evitar as muitas calamidades ambientais causadas pelas mudanças climáticas, teremos, “a contragosto”, destaca Dvorsky, que começar a geoengenharia do planeta.

Trata-se da ciência que estuda os meios de manipulação do clima através da tecnologia e de forma controlada. Ou seja, está relacionado ao item anterior. A geoengenharia propõe resolver os problemas climáticos do planeta, mas seus efeitos colaterais poderiam ser catastróficos. Ela pode criar secas em determinada região e provocar chuvas em outros locais do globo.

Imagem conceptual de um navio desocupado projetado para gerar nuvens e refletir a luz solar longe da terra (imagem: Stephen Salter)

Algumas propostas de geohacking incluem semeadura de nuvens cirrus para reduzir a refletividade, injeção de partículas estratosféricas para gerenciamento de radiação solar, injeção de enxofre-aerossol para induzir o escurecimento global e soluções simples como o reflorestamento tropical para restaurar o balanço de carbono.

Outras ideias incluem um refletor espacial gigante (embora isso possa estar além de nossas capacidades tecnológicas até 2100), a fertilização do oceano para desovar as flores de algas que sugam o carbono e o aumento da alcalinidade do oceano para tornar o oceano menos ácido.

Comunicação através da mente

Dvorsky acredita que os progressos contínuos nas tecnologias de comunicações e na neurociência transformarão a humanidade em uma espécie telepática. Na verdade, ele afirma que este futuro pode estar “mais perto do que pensamos”.

Em 2014, uma equipe internacional de pesquisadores foi a primeira a demonstrar um sistema direto e completamente não-invasivo de comunicação cérebro-cérebro. Durante o experimento, dois participantes puderam trocar palavras mentalmente conjuradas, apesar de estarem separados por centenas de quilômetros.

Um ano depois, uma outra equipe de pesquisadores transmitiu sinais cerebrais pela Internet para controlar os movimentos das mãos de outra pessoa, permitindo que eles colaborassem em um jogo de computador.

Estes sistemas, embora extremamente rudimentares, apontam para um futuro em que podemos simplesmente usar nossos pensamentos para conversar uns com os outros, e até mesmo controlar dispositivos inteligentes “telecineticamente”.

Fusão nuclear

No início deste ano, físicos na Alemanha usaram um pulso de microondas de 2 megawatts para aquecer o plasma de hidrogênio de baixa densidade a 80 milhões de graus. O experimento não produziu energia e durou apenas um quarto de segundo, mas foi um passo importante no esforço para aproveitar uma forma extremamente promissora de produção de energia conhecida como fusão nuclear.

Ao contrário da fissão nuclear, onde o núcleo de um átomo é dividido em partes menores, a fusão nuclear cria um único núcleo pesado a partir de dois núcleos mais leves. A mudança resultante na massa gera uma tremenda quantidade de energia que os cientistas acreditam que pode ser aproveitada em uma fonte viável de energia limpa.

Formas de vida artificiais

Não contentes em parar na engenharia genética, os cientistas do futuro poderão ser capazes de projetar e criar novos organismos a partir do zero. Desde bactérias microscópicassintéticas até design de seres humanos, algo como os Replicantes em Blade Runner.

Esta área de estudo é crescente, e conhecida como vida artificial. Ou seja, a busca pela criação de formas sintéticas de vida já está em andamento. No início deste ano, pesquisadores da Synthetic Genomics e do Instituto J. Craig Venter criaram com sucesso um genoma bacteriano artificial que, com 473 genes, é menor do que qualquer coisa encontrada na natureza.

Avanços adicionais neste domínio ajudarão os biólogos a explorar as funções centrais da vida e a categorizar genes essenciais dentro das células. Os pesquisadores podem usar células como estas para construir organismos com capacidades não encontradas na natureza, como por exemplo bactérias que podem consumir resíduos plásticos e tóxicos e microorganismos que podem funcionar como medicamentos dentro do corpo.

Qualquer uma dessas tem o potencial para remodelar nossa civilização. O que não fica muito claro é como essas maravilhas funcionarão em conjunto umas com as outras. Obvio que muitas delas têm grande ligação e podem se influenciar, ou talvez uma não faça tanto sentido com a existência de outra.

Por exemplo, como destaca Dvorsky, a convergência da VR ligada ao cérebro, do upload da mente e da IA pode resultar em uma civilização híbrida baseada em computador, constituída por seres humanos do mundo real, cérebros emulados e intelectos artificiais. Imagine tudo isso com o surgimento de formas de vida humanas artificiais?

E você, o que acha dessas tecnologias? Quais outras invenções futuristas acredita que tem potencial de se concretizar no próximo século?

Pin It on Pinterest

Share This