Denis Villeneuve está no auge de sua carreira e foi encarregado da difícil missão de dirigir a sequência do clássico Blade Runner, que estreia em outubro de 2017. Afinal, enfrentar os fãs xiitas e a crítica especializada nunca é fácil, ainda mais quando se trata de um ícone da ficção-científica. No entanto, o diretor dos filmes Os Suspeitos e Homem Duplicado provou estar pronto para o gênero com seu mais novo filme que estreou no último dia 24.

Baseado no conto História da sua Vida, de Ted Chiang, A Chegada conta a história de 12 naves alienígenas que pousam em diferentes lugares do planeta sem muito alarde. Para descobrir as razões desta visita extraterrestre, o exército americano convocam a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista renomada, para que ela possa se comunicar com os alienígenas e, juntamente com a ajuda do matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner), saber qual é a intenção deles aqui.

Sim, você já está cansado de ver filmes sobre naves gigantescas que pousam na Terra e o exercito americano tentando resolver tudo. Porém, esqueça tudo o que você viu nas últimas ficções sobre o tema. Aqui nós não temos explosões, civilizações dizimadas, muito menos correria desenfreada contra o tempo. O exercício aqui é, acima de tudo, de paciência. Uma ficção científica nos seus moldes clássicos.

Isso porque a linguista Banks está ali para resolver isso de uma forma civilizada. Já que não há um ataque iminente, o ideal é descobrir por qual razão eles estão ali. Junto a ela, acompanhamos todo este diálogo com calma, sem precipitação e alguns nós na cabeça.

Um dos grandes pontos do filme é a forma com que o diretor trata a linguagem do filme, que possui carcaça de filme gigante, mas na verdade é algo intimista, pequeno, de elenco enxugado e com um conteúdo absurdamente bem colocado. Dentre diversas camadas, o roteiro escrito por Eric Heisserer é um verdadeiro deleite crítico sobre como o ser humano se comunica e toda a sua dificuldade de encarar o novo. Para quem acompanha a série Black Mirror, este filme pode ter muito mais a dizer do que a própria série.

Outro grande destaque é sua montagem. O diretor faz com que a construção da narrativa funcione da mesma forma com que a essência de seu filme e faz com que a edição acompanhe a protagonista de maneira muito próxima. Não será surpresa surgir alguma indicação nesta categoria. A simbologia do longa é um pilar e vai fazer com que o público saia ligando todos os pontos após o filme. Posso adiantar que a trama e tão circular e fechadinha quanto o símbolo da foto acima, mais que isso é spoiler, e é MUITO fácil soltar um. Qualquer detalhe é detalhe.

O elenco, como já destacado, é enxuto mas extremamente competente. Forrest Whitaker e Jeremy Renner fazem ótimos trabalhos, mas é de Amy Adams todo o mérito. A atriz consolida seu auge neste filme e deve estar entre as indicadas aos prêmios do próximo ano. Sua personagem é repleta de camadas, que ao longo do tempo vão se amarrando e contribuindo para o crescimento de sua narrativa e a identificação do público. Banks acaba por ser uma personificação de cada um dentro da sala de cinema.

Entre os melhores filmes do ano (se não o), A Chegada é muito mais sobre o ser humano do que sobre aliens ou invasões extraterrestres, isso sem entrar no aspecto político, também muito bem colocado. É um filme que, tanto nos aspectos técnicos, quanto dentro de sua narrativa, mostra que a linguagem é essencial para o crescimento humano (e para o cinema). De maneira muito sutil, Denis Villeneuve nos faz refletir sobre o medo, o tempo, nossas escolhas, o quanto isso influencia no nosso futuro e se estamos preparados para estas consequências. Se depender deste filme, podemos ficar tranquilos, o diretor passou no teste, a sequência de Blade Runner está em ótimas mãos.

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