Identidade pessoal e psicossocial?!

Embora a discrepância de direitos e igualdades entre humanos, seja regra histórica, generalizada independentemente de qualquer época, e ainda hoje se constatar que a maioria da humanidade luta, em termos de necessidades primárias, por “pão” e proteção, é nos mais abastados em diversidade e disponibilidade de bens materiais, sociais e culturais, que se verifica uma maior dificuldade de identidade pessoal e psicossocial.

Isso explica-se pela dispersão e descaracterização de grupos étnicos assimilados pela globalização, pelas culturas naturalmente “corrompidas” nos seus aspectos idiossincráticos, pela “efervescência” da quantidade de informação, que irradia de forma exponencial e em incompatibilidade com a necessidade da introspecção e autoconhecimento, fundamentais para um equilíbrio emocional do ser humano e da conscientização, espiritual, social e antropológica, da sua identidade. Na verdade, essa amalgama de conhecimentos, tecnologia, possibilidades e informações que tenderiam a melhor esclarecer cada ser humano no que respeita à sua identidade individual e psicossocial, mais se mostra como um amplo vácuo, que se alastra como que impregnado no próprio universo em expansão, repleto de múltiplas interrogações, indefinições e receios.

Algumas das manifestações desse quadro, estão ilustradas no comportamento arbitrário e inseguro de muitas pessoas inteligentes, sensíveis, mas fragilizadas pela dificuldade de introspecção, pela dificuldade da assertividade das suas escolhas, da obtenção da eficácia das suas ações e da irregularidade do humor ou imprevisibilidade do temperamento. A dificuldade de ter uma maior consciência do seu “eu”, autônomo e responsável gera uma sutil e solitária agonia, traduzida na instabilidade emocional, de quem não sabe (ou não quer) pedir ajuda. Em alguns casos sob a influência ou predominância de um Ego inflado que se exibe, autoritário, combatendo de forma mais ou menos inconsciente o vislumbre de uma rendição, que se poderia mostrar emocionalmente suicida e trazer descobertas aterrorizantes.

Nesses casos é como que um “instinto” de sobrevivência que comanda as operações, levando a pessoa a tornar-se desmedidamente ativa e envolvida com coisas, muitas coisas, que quase sempre não levam a lugar algum e a afastam de forma abismal, de si própria. Para além da necessidade da pessoa se sentir ocupada e operacional, outros sintomas, são a necessidade de se sentir útil, justa e admirada, solidária e guerreira, dissimulando qualquer início de incapacidade, incompetência, dificuldade ou fragilidade, que desse modo é ilusoriamente afastado, pelo recorrer a um comportamento permissivo, subserviente, o que na verdade nada mais é do que a manifestação do desconhecimento de si mesma.

Estas pessoas, muitas vezes iludidas por uma significativa formação acadêmica, ou suposta experiência de vida, não têm, em muitos casos, a percepção do desajuste do seu comportamento e da ineficácia das suas ações. Apenas sofrem como que submetidas a um terrorismo emocional que afinal elas mesmas edificam. Para quem observa, parecem os “bobos” da sociedade, que é predominantemente implacável na sua postura para com esse tipo de perfil, mesmo porque precisamos do mal dos outros, para nos acomodarmos na nossa ilusória e insípida felicidade.

Esta não é uma abordagem apologista do pessimismo, e da crítica barata. É isso sim, um incisivo alerta para uma reflexão, num primeiro momento e um partir para a ação em sequência, para a reivindicação de uma inversão desse quadro, protagonizado pelo usufruto das nossas reais e ilimitadas capacidades.

Olhe à sua volta, com alguma atenção e encontrará pessoas assim. Talvez mais do que poderia imaginar. Ofereça, escuta, compreensão, sem julgamento nem despotismo. Não dê conselhos, dê atenção e disponibilidade. Dê amor incondicional (depois de entender o que isso é). Lembre-se, muito provavelmente a pessoa nem sabe que precisa nem aceitará a sua ajuda. Apenas mostre a sua serenidade e escolha estar bem e sobretudo fazendo muito bem a sua parte (o que é o mesmo que dizer, assumir a sua responsabilidade em todos os aspectos da sua vida). Desse modo ela irá entender que também pode atingir tudo isso. E é pela conscientização dessa nova realidade que pode surgir a vontade de mudança. Porque ninguém muda para um caminho que não vislumbra.

 

‘Vivemos no piloto automático’, diz autor de best-seller

 

Com dificuldade para controlar as próprias ações, o jornalista Charles Duhigg pesquisou como os hábitos nascem e descobriu a receita para transformá-los

 

Desde seu lançamento, em 2012, o livro “O Poder do Hábito”, de Charles Duhigg, é um fenômeno internacional. Já são mais de 60 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e 80 na lista de VEJA, com mais de dois milhões de exemplares vendidos no mundo. A premissa do autor é simples: mais de 40% das nossas ações cotidianas – o que comemos, como nos exercitamos, como nos relacionamos com o trabalho e com as pessoas – são, na verdade, automáticas. Movido pelo desejo de transformar a incômoda (e pouco saudável) mania de comer um cookie todos os dias no trabalho, Duhigg, repórter vencedor do prêmio Pulitzer de 2013, mergulhou na ciência da formação dos hábitos e apresentou sua descoberta: é possível transformá-los. Dias antes de sua palestra na Bienal do Rio, o autor falou à VEJA sobre o tema.

O que é, exatamente, um hábito? Hábitos são ações que começam com uma decisão e, conforme são repetidas, tornam-se inconscientes. É uma forma de o cérebro poupar energia e não se esforçar tanto para tomar decisões rotineiras. Por exemplo, aprender a estacionar um carro é bastante trabalhoso no início. Não estamos acostumados a olhar o retrovisor, calcular a distância entre o carro e a calçada, checar o espaço à frente, calcular a força do acelerador, etc. Se você consegue fazer tudo isso automaticamente, é porque já virou um hábito. O curioso é que cerca de 40% das nossas ações cotidianas não são conscientes. Funcionamos boa parte do tempo no piloto automático. O importante para mudar um hábito é entender que ele tem três partes: há uma “deixa” ou “gatilho”, algo que desperta a ação; a rotina, que é o comportamento em si; e a recompensa – a sensação de satisfação que o cérebro experimenta após cumprir a tarefa a que está habituado.

A partir desse esquema, como é possível mudar um hábito? Uma vez que se define qual é a deixa e a recompensa, é possível substituir o comportamento que se tornou um hábito. Soa simples, mas pode ser bem trabalhoso. A deixa, na maioria dos casos, é bastante óbvia. Pode ser um horário do dia, ou o contato com uma pessoa, etc. A recompensa, por outro lado, pode estar ligada à fatores emocionais mais “profundos”. Minha dica é fazer experimentos. Pegue o meu hábito do cookie, por exemplo. Eu queria identificar se eu o executava por fome – e, neste caso, um outro lanche resolveria o problema -, se precisava apenas de uma pausa no trabalho ou se era uma desculpa para conversar com meus amigos na cafeteria. Acabei percebendo que alguns minutos conversando na mesa de um colega satisfaziam minha Se fosse a necessidade da pausa, um passeio pelo quarteirão seria uma alternativa. E assim por diante.

É possível mudar comportamentos mais profundos – como insegurança, depressão ou ansiedade – usando essa teoria? Sim, perfeitamente. Há uma vasta literatura da psicologia, especialmente na área da terapia cognitivo-comportamental, que afirma que muitos dos nossos comportamentos negativos são regidos por hábitos. Se eu sofro de baixa autoestima, por exemplo, pode ser porque tenho um hábito mental de dizer a mim mesmo que não sou bom o suficiente. Se sou tímido, posso ter cultivado o hábito de não assumir riscos. Olhar para as deixas e recompensas que guiam esses comportamentos é uma maneira de começar a alterá-los. Muitas vezes, a manutenção da zona de conforto já é uma gratificação. Um cara que tem medo de conversar com uma mulher bonita no bar provavelmente vê a garantia de não levar um fora como recompensa. Para mudar este hábito, terá que se convencer de que o “não” não é o fim do mundo.

Há algum hábito ruim que seja muito comum neste século? O aumento da tecnologia faz com criemos hábitos em torno delas. Vide o vício nos smartphones, por exemplo. Há pesquisas científicas que mostram que as pessoas estão refletindo menos sobre os assuntos, por falta de tempo para se aprofundar ou mesmo para divagar. Nossa atenção é tomada por diversos conteúdos rápidos, que não demandam muito raciocínio, mas, ao mesmo tempo, também não nos deixam descansar. Isso é uma consequência do hábito de acompanhar diversas redes e portais ao mesmo tempo.

O que pode estar por trás dele? Pode ser um desejo por diversão e novidade ao longo de um trabalho monótono ou, no caso das redes sociais, uma necessidade de controle sobre o que acontece. Pode até mesmo ser uma dependência da aprovação social via “curtidas” ou comentários. Entretanto, é importante ressaltar que os hábitos não são bons nem ruins em sua raiz. Criar o hábito de entrar no Facebook pode ser benéfico para alguém que vive longe da família ou trabalha com mídias sociais.

É possível mudar um hábito sem fazer esforço? Às vezes, sim. Sabe-se que quando as pessoas saem de férias, conseguem alterar hábitos bastante arraigados quase inconscientemente, porque suas antigas deixas vão embora. Mudar de ambiente é uma maneira de acelerar uma transformação. Tentar parar de fumar durante as férias, por exemplo, pode ser mais fácil. Entretanto, como nem sempre é possível se afastar da rotina para mudar hábitos problemáticos, minha dica é focar na recompensa. A força que o cérebro tem para transformar seus padrões está diretamente relacionada ao poder da gratificação