Identidade pessoal e psicossocial?!

Embora a discrepância de direitos e igualdades entre humanos, seja regra histórica, generalizada independentemente de qualquer época, e ainda hoje se constatar que a maioria da humanidade luta, em termos de necessidades primárias, por “pão” e proteção, é nos mais abastados em diversidade e disponibilidade de bens materiais, sociais e culturais, que se verifica uma maior dificuldade de identidade pessoal e psicossocial.

Isso explica-se pela dispersão e descaracterização de grupos étnicos assimilados pela globalização, pelas culturas naturalmente “corrompidas” nos seus aspectos idiossincráticos, pela “efervescência” da quantidade de informação, que irradia de forma exponencial e em incompatibilidade com a necessidade da introspecção e autoconhecimento, fundamentais para um equilíbrio emocional do ser humano e da conscientização, espiritual, social e antropológica, da sua identidade. Na verdade, essa amalgama de conhecimentos, tecnologia, possibilidades e informações que tenderiam a melhor esclarecer cada ser humano no que respeita à sua identidade individual e psicossocial, mais se mostra como um amplo vácuo, que se alastra como que impregnado no próprio universo em expansão, repleto de múltiplas interrogações, indefinições e receios.

Algumas das manifestações desse quadro, estão ilustradas no comportamento arbitrário e inseguro de muitas pessoas inteligentes, sensíveis, mas fragilizadas pela dificuldade de introspecção, pela dificuldade da assertividade das suas escolhas, da obtenção da eficácia das suas ações e da irregularidade do humor ou imprevisibilidade do temperamento. A dificuldade de ter uma maior consciência do seu “eu”, autônomo e responsável gera uma sutil e solitária agonia, traduzida na instabilidade emocional, de quem não sabe (ou não quer) pedir ajuda. Em alguns casos sob a influência ou predominância de um Ego inflado que se exibe, autoritário, combatendo de forma mais ou menos inconsciente o vislumbre de uma rendição, que se poderia mostrar emocionalmente suicida e trazer descobertas aterrorizantes.

Nesses casos é como que um “instinto” de sobrevivência que comanda as operações, levando a pessoa a tornar-se desmedidamente ativa e envolvida com coisas, muitas coisas, que quase sempre não levam a lugar algum e a afastam de forma abismal, de si própria. Para além da necessidade da pessoa se sentir ocupada e operacional, outros sintomas, são a necessidade de se sentir útil, justa e admirada, solidária e guerreira, dissimulando qualquer início de incapacidade, incompetência, dificuldade ou fragilidade, que desse modo é ilusoriamente afastado, pelo recorrer a um comportamento permissivo, subserviente, o que na verdade nada mais é do que a manifestação do desconhecimento de si mesma.

Estas pessoas, muitas vezes iludidas por uma significativa formação acadêmica, ou suposta experiência de vida, não têm, em muitos casos, a percepção do desajuste do seu comportamento e da ineficácia das suas ações. Apenas sofrem como que submetidas a um terrorismo emocional que afinal elas mesmas edificam. Para quem observa, parecem os “bobos” da sociedade, que é predominantemente implacável na sua postura para com esse tipo de perfil, mesmo porque precisamos do mal dos outros, para nos acomodarmos na nossa ilusória e insípida felicidade.

Esta não é uma abordagem apologista do pessimismo, e da crítica barata. É isso sim, um incisivo alerta para uma reflexão, num primeiro momento e um partir para a ação em sequência, para a reivindicação de uma inversão desse quadro, protagonizado pelo usufruto das nossas reais e ilimitadas capacidades.

Olhe à sua volta, com alguma atenção e encontrará pessoas assim. Talvez mais do que poderia imaginar. Ofereça, escuta, compreensão, sem julgamento nem despotismo. Não dê conselhos, dê atenção e disponibilidade. Dê amor incondicional (depois de entender o que isso é). Lembre-se, muito provavelmente a pessoa nem sabe que precisa nem aceitará a sua ajuda. Apenas mostre a sua serenidade e escolha estar bem e sobretudo fazendo muito bem a sua parte (o que é o mesmo que dizer, assumir a sua responsabilidade em todos os aspectos da sua vida). Desse modo ela irá entender que também pode atingir tudo isso. E é pela conscientização dessa nova realidade que pode surgir a vontade de mudança. Porque ninguém muda para um caminho que não vislumbra.

 

‘Vivemos no piloto automático’, diz autor de best-seller

 

Com dificuldade para controlar as próprias ações, o jornalista Charles Duhigg pesquisou como os hábitos nascem e descobriu a receita para transformá-los

 

Desde seu lançamento, em 2012, o livro “O Poder do Hábito”, de Charles Duhigg, é um fenômeno internacional. Já são mais de 60 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e 80 na lista de VEJA, com mais de dois milhões de exemplares vendidos no mundo. A premissa do autor é simples: mais de 40% das nossas ações cotidianas – o que comemos, como nos exercitamos, como nos relacionamos com o trabalho e com as pessoas – são, na verdade, automáticas. Movido pelo desejo de transformar a incômoda (e pouco saudável) mania de comer um cookie todos os dias no trabalho, Duhigg, repórter vencedor do prêmio Pulitzer de 2013, mergulhou na ciência da formação dos hábitos e apresentou sua descoberta: é possível transformá-los. Dias antes de sua palestra na Bienal do Rio, o autor falou à VEJA sobre o tema.

O que é, exatamente, um hábito? Hábitos são ações que começam com uma decisão e, conforme são repetidas, tornam-se inconscientes. É uma forma de o cérebro poupar energia e não se esforçar tanto para tomar decisões rotineiras. Por exemplo, aprender a estacionar um carro é bastante trabalhoso no início. Não estamos acostumados a olhar o retrovisor, calcular a distância entre o carro e a calçada, checar o espaço à frente, calcular a força do acelerador, etc. Se você consegue fazer tudo isso automaticamente, é porque já virou um hábito. O curioso é que cerca de 40% das nossas ações cotidianas não são conscientes. Funcionamos boa parte do tempo no piloto automático. O importante para mudar um hábito é entender que ele tem três partes: há uma “deixa” ou “gatilho”, algo que desperta a ação; a rotina, que é o comportamento em si; e a recompensa – a sensação de satisfação que o cérebro experimenta após cumprir a tarefa a que está habituado.

A partir desse esquema, como é possível mudar um hábito? Uma vez que se define qual é a deixa e a recompensa, é possível substituir o comportamento que se tornou um hábito. Soa simples, mas pode ser bem trabalhoso. A deixa, na maioria dos casos, é bastante óbvia. Pode ser um horário do dia, ou o contato com uma pessoa, etc. A recompensa, por outro lado, pode estar ligada à fatores emocionais mais “profundos”. Minha dica é fazer experimentos. Pegue o meu hábito do cookie, por exemplo. Eu queria identificar se eu o executava por fome – e, neste caso, um outro lanche resolveria o problema -, se precisava apenas de uma pausa no trabalho ou se era uma desculpa para conversar com meus amigos na cafeteria. Acabei percebendo que alguns minutos conversando na mesa de um colega satisfaziam minha Se fosse a necessidade da pausa, um passeio pelo quarteirão seria uma alternativa. E assim por diante.

É possível mudar comportamentos mais profundos – como insegurança, depressão ou ansiedade – usando essa teoria? Sim, perfeitamente. Há uma vasta literatura da psicologia, especialmente na área da terapia cognitivo-comportamental, que afirma que muitos dos nossos comportamentos negativos são regidos por hábitos. Se eu sofro de baixa autoestima, por exemplo, pode ser porque tenho um hábito mental de dizer a mim mesmo que não sou bom o suficiente. Se sou tímido, posso ter cultivado o hábito de não assumir riscos. Olhar para as deixas e recompensas que guiam esses comportamentos é uma maneira de começar a alterá-los. Muitas vezes, a manutenção da zona de conforto já é uma gratificação. Um cara que tem medo de conversar com uma mulher bonita no bar provavelmente vê a garantia de não levar um fora como recompensa. Para mudar este hábito, terá que se convencer de que o “não” não é o fim do mundo.

Há algum hábito ruim que seja muito comum neste século? O aumento da tecnologia faz com criemos hábitos em torno delas. Vide o vício nos smartphones, por exemplo. Há pesquisas científicas que mostram que as pessoas estão refletindo menos sobre os assuntos, por falta de tempo para se aprofundar ou mesmo para divagar. Nossa atenção é tomada por diversos conteúdos rápidos, que não demandam muito raciocínio, mas, ao mesmo tempo, também não nos deixam descansar. Isso é uma consequência do hábito de acompanhar diversas redes e portais ao mesmo tempo.

O que pode estar por trás dele? Pode ser um desejo por diversão e novidade ao longo de um trabalho monótono ou, no caso das redes sociais, uma necessidade de controle sobre o que acontece. Pode até mesmo ser uma dependência da aprovação social via “curtidas” ou comentários. Entretanto, é importante ressaltar que os hábitos não são bons nem ruins em sua raiz. Criar o hábito de entrar no Facebook pode ser benéfico para alguém que vive longe da família ou trabalha com mídias sociais.

É possível mudar um hábito sem fazer esforço? Às vezes, sim. Sabe-se que quando as pessoas saem de férias, conseguem alterar hábitos bastante arraigados quase inconscientemente, porque suas antigas deixas vão embora. Mudar de ambiente é uma maneira de acelerar uma transformação. Tentar parar de fumar durante as férias, por exemplo, pode ser mais fácil. Entretanto, como nem sempre é possível se afastar da rotina para mudar hábitos problemáticos, minha dica é focar na recompensa. A força que o cérebro tem para transformar seus padrões está diretamente relacionada ao poder da gratificação

Tinha a certeza de que você viria

Pesquisas realizadas na Universidade de Tel Aviv e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts comprovaram que somente metade dos que consideramos amigos de alma o são de verdade

Há um provérbio popular que diz que “Os verdadeiros amigos a gente conta nos dedos de uma mão”. Mais uma vez, o povo acertou. Estou aqui falando de amizade, de sentimento recíproco de uma pessoa com a outra, de emoção. Este atributo – a amizade – parece não ser algo que se possa concretizar numericamente. Mas, quando a gente pensa que já viu de tudo, sempre aparece algo para nos surpreender e eu vou falar de uma delas.

Pesquisas realizadas na Universidade de Tel Aviv e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts comprovaram que somente metade dos que consideramos amigos de alma o são de verdade. Pelo que se sabe, nós somos realmente incapazes de tocar no sentimento do outro. O que conhecemos dele é somente aquilo que ele demonstra e o que nós percebemos e imaginamos retribuir em relação a tais demonstrações.

O cientista, Dr. Erez Shmueli, coordenou uma equipe de estudos sobre a reciprocidade da amizade e assevera que nós não somos nada bons para julgar quem são nossos amigos e que nossa dificuldade em gerir a reciprocidade de amizade limita a nossa capacidade de nos envolver em acordos de cooperação.

Mas de que maneira os cientistas conseguiram fazer uma medição que comprovasse esta premissa? Era necessário criar uma forma material de medir essas relações e quantificar o seu impacto. Assim foi feito. Imagine que eles criaram um algoritmo que analisa várias características objetivas de uma amizade percebida, ou seja, o número de amigos em comum ou o total de amigos, sendo este algoritmo  capaz de distinguir os dois tipos de amizade: aquelas que se dão apenas por um dos lados – as unidirecionais – e aquelas que se dão de forma recíproca.

O Dr. Erez explica que se você acha que alguma pessoa é sua amiga, sua expectativa é que ele sinta a mesma coisa por você. E completa dizendo que este não é o caso e que 50% dos entrevistados ficaram alojados na categoria de amizade bidirecional. Para chegarem a esta conclusão, os pesquisadores conduziram extensas experiências sociais e analisaram dados de outros estudos para determinar a porcentagem de amizades recíprocas e seu impacto sobre o comportamento humano.

A equipe também examinou seis pesquisas sobre amizade de cerca de 600 estudantes em Israel, na Europa e nos Estados Unidos para avaliar os níveis de amizade e expectativas de reciprocidade. Segundo o coordenador da pesquisa, as relações de reciprocidade são importantes por causa da influência social. Diz ele que a influência é o nome do jogo. Utilizando o experimento social do “FunFit”, a equipe descobriu que a pressão da amizade pesa muito mais do que o dinheiro, em termos de motivação. Os pressionados por amigos recíprocos usufruíram mais e desfrutaram de um maior progresso de que aqueles que guardavam somente laços de amizade unilaterais.

Aqueles que não têm o conhecimento dos algoritmos da dita “máquina da amizade” vão ter que continuar a ver os amigos que julgam verdadeiros, como verdadeiros, a não ser por um ato de bravura que prove a reciprocidade, como conta esta história: “Em pleno campo de batalha, um soldado, vendo que seu amigo não voltara da frente de combate, pediu ao tenente para ir buscá-lo. Seu superior negou, pois não queria que ele arriscasse a vida por um homem, provavelmente, morto. Ignorando a proibição, o soldado partiu em busca do amigo. Uma hora mais tarde, voltou muito ferido, trazendo um morto às costas. Furioso, o oficial falou: – Eu não disse que ele estava morto! Valeu a pena trazer o cadáver? E o soldado, moribundo, respondeu: – Claro que sim! Quando o encontrei, ele ainda estava vivo e pode me dizer: – Tinha a certeza de que você viria!”.

Estes não precisaram de nenhum algoritmo para dizer que havia reciprocidade na amizade. Amigo é assim. Chega quando todo mundo já se foi e sua lealdade é um dos pilares que sustentam o seu real valor.

Porque ficamos lesados no dia seguinte da bebedeira?

Acordar com uma ressaca pode fazer você se sentir um pouco burro e lesado e não apenas por se arrepender daquela ligação para o ex na noite anterior.

Além dos efeitos colaterais da ressaca que já conhecemos bem, depois de uma bebedeira exagerada, nossa mente também é afetada a ponto de não conseguirmos pensar com clareza.

De acordo com artigo publicado pelo Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA, na sigla em inglês), o álcool afeta partes importantes do nosso cérebro, como o cerebelo (que controla nossa coordenação motora), o sistema límbico (que lida com as emoções e a memória) e o córtex cerebral (responsável pela nossa capacidade de pensar, resolver problemas, lembrar e aprender).

O problema é que os efeitos do álcool nessas áreas não desaparecem depois do último gole – eles permanecem no dia seguinte durante a ressaca.

Um estudo de 2009 publicado no “International Journal of Neuroscience” descobriu que a ressaca tem efeitos negativos sobre as nossas funções cognitivas, incluindo processos intelectuais e de memória. Outra pesquisa de 2003 no “Neuropsychopharmacology” revelou que as pessoas ficam menos alertas quando exageram na bebida na noite anterior.

A ressaca também afeta nossas emoções, fazendo com que a gente se sinta mal pela noite anterior. Em entrevista ao site “Refinery 29”, Aaron White, consultor científico do NIAAA, afirma que a ressaca nos chateia por fazer com que agente se sinta doente. “E quando você não se sente bem, é difícil prestar atenção e ficar motivado.”

Prestar atenção nas coisas é crucial para várias funções cognitivas e, quando não conseguimos focar em nada, podemos ter problemas com tarefas mais complexas. “A ressaca é o resultado de ter exposto o corpo a toxinas”, explica White. E esse “tapa na cara” fisiológico é o que faz com que a gente se sinta mal por ter bebido demais.

A boa notícia no meio disso tudo é que aquela história de que o álcool pode “matar células cerebrais” é uma balela. Mas o que beber realmente faz é provocar uma inflamação no cérebro. “Para que os neurônios funcionem, os circuitos do cérebro precisam ter um equilíbrio de fluídos e produtos químicos em torno dos neurônios”, diz White. E, como o álcool “quebra” esse equilíbrio, é normal que o cérebro não funcione direito no dia seguinte da bebedeira, o que faz com que a gente se sinta lerdo.

A dica de White para superar a ressaca é fazer o que te faz bem. Para a grande maioria, hidratar-se já ajuda a se sentir melhor. “Algumas pessoas ficam bem depois de ingerir alguma bebida com cafeína, outros gostam de se exercitar,enquanto outros precisam esperar a ressaca passar”, fala.

Assista ao vídeo abaixo e veja o que é lenda e o que funciona contra a ressaca:

Vida Saudável, do UOL

Estudo traz novo entendimento de como a depressão age no cérebro

Cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego conseguiram um progresso importante no entendimento de como a depressão atua sobre o cérebro – e abriram caminho para a criação de tratamentos mais eficazes no futuro.

Imagem ampliada do corpo celular de um neurônio pálido ventral (em vermelho) e locais de contato sináptico – áreas onde as células transmitem informações umas para as outras (Daniel Knowland e Byungkook Lim, UC San Diego/Divulgação)

Cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego conseguiram um progresso importante no entendimento de como a depressão atua sobre o cérebro – e abriram caminho para a criação de tratamentos mais eficazes no futuro.

Em estudo publicado recentemente no jornal Cell, os autores descobriram uma correlação entre a atividade de certas células cerebrais e diferentes sintomas comportamentais da depressão. Mais especificamente, eles conseguiram identificar os circuitos cerebrais ligados a sentimentos de desespero e desamparo típicos da doença – e, mais do que isso, conseguiram aliviar e até mesmo reverter os sintomas em estudos com ratos.

A grande sacada dos pesquisadores foi a abordagem da doença: em vez de tratá-la como algo padronizado e restrito a uma só região do cérebro, eles partiram do princípio de que diferentes áreas e circuitos cerebrais podem mediar ou contribuir para aspectos (mesmo que discretos) da depressão. “Por exemplo, a área cerebral A pode contribuir para a perda de apetite, a área cerebral B para a retirada social e assim por diante”, disse um dos autores do estudo, Daniel Knowland.

Eles empregaram várias ferramentas para rastrear esses circuitos envolvidos em comportamentos específicos, incluindo técnicas que produziram imagens como a deste post. Com isso, conseguiram examinar as atividades cerebrais em várias regiões distintas e entender de que forma uma impactou a outra, obtendo assim uma visão mais abrangente de como a doença se manifesta.

Outro autor, o professor Byungkook Lim, disse que ainda é preciso muito mais estudo antes que os resultados possam ser aplicados a humanos, mas diz que as conclusões usando ratos são animadoras. “Este é um dos primeiros estudos que fornece evidências claras de que diferentes circuitos cerebrais estão envolvidos em diferentes tipos de comportamento depressivo”, disse ele. “Cada área do cérebro é diferente e com tipos de células e conectividade distintas; portanto, se podemos confirmar que uma área de circuitos está mais envolvida em um sintoma particular do que outra, podemos eventualmente ser capazes de tratar um paciente depressivo de forma mais eficiente do que tratar todos da mesma forma [visto que a depressão pode se manifestar de maneiras distintas em diferentes pessoas]”.

(Via Medical Xpress).

‘Junk food’ inflama o cérebro e aumenta o apetite

Dois estudos revelam como desativar nossa dependência natural de gorduras para evitar a obesidade

Os humanos têm um cérebro viciado em gordura. Durante dezenas de milhares de anos, essa dependência nos ajudou a desenvolver um intelecto cada vez maior e a sobreviver num ambiente com alimentos escassos. As gorduras são uma das fontes mais ricas em calorias. Por isso, quando as encontrávamos, os neurônios aumentavam nosso apetite para que fizéssemos um banquete e armazenássemos uma boa quantidade de nutrientes para os dias de penúria. Nosso modo de vida mudou muito desde então, mas nosso cérebro não. Ele continua nos pedindo mais combustível no ambiente atual, onde a comida saturada de gordura, sal e açúcar está sempre ao alcance das mãos. Eis uma das razões para a crescente epidemia de obesidade. É muito difícil lutar contra a evolução.

Uma equipe de cientistas dos Estados Unidos acaba de revelar a chave que governa esse processo e que poderia permitir o desenvolvimento de melhores fármacos contra o sobrepeso. Até agora, sabia-se que a ingestão de alimentos é controlada por neurônios do hipotálamo, uma área muito interna e fundamental do encéfalo, mediada por hormônios como a leptina. Mas essa é apenas uma parte do processo. Como mostra o novo estudo, as células do sistema imunológico encontradas no cérebro, chamadas de micróglia, ficam inflamadas com a ingestão de uma dieta rica em gorduras. Essa inflamação está associada ao aumento do apetite e, portanto, com o sobrepeso e a obesidade.

Em seu estudo, os pesquisadores usaram camundongos cujas células da micróglia foram eliminadas ou desativadas geneticamente. Apesar de continuarem consumindo a dieta repleta de gorduras, os animais modificados comem 15% menos e perdem até 40% do peso. Por outro lado, se um roedor normal tiver uma inflamação dessas células do hipotálamo, comerá 33% mais e ganhará até quatro vezes o seu peso. Tudo isso indica que a comida rica em gorduras provoca uma inflamação da micróglia, que, por sua vez, desencadeia essa ânsia de comer que vem como item de série em nossa massa cinzenta.

“Existem hoje fármacos que agem diretamente nos neurônios reguladores do apetite, mas não são muito específicos e produzem efeitos colaterais, como depressão e ansiedade”, explica o pesquisador espanhol Matías Valdearcos, da Universidade da Califórnia, San Francisco, e principal autor do estudo, publicado na revista Cell Metabolism. “Do ponto de vista terapêutico, é muito mais fácil intervir nessas células. Portanto, está aberta a porta para encontrarmos um fármaco que regule esse mecanismo”, afirma.

As células cerebrais envolvidas no processo fazem parte da glia, um conjunto de células do encéfalo que até há pouco eram consideradas meros andaimes para sustentar os neurônios. Pesquisas mais recentes demonstraram que tais células podem ter outras funções mais importantes no funcionamento do cérebro. Assim como os camundongos do estudo, as pessoas obesas têm as células da glia inflamadas no hipotálamo, ao contrário das que têm peso normal. E essa inflamação também ocorre em humanos com lesão cerebral, doenças neurodegenerativas e câncer.

Agora, a equipe de Valdearcos pretende revelar os detalhes desse mecanismo e observar se ele também ocorre em humanos. Além disso, os cientistas prestam atenção num ensaio clínico com o fármaco PLX3977, do laboratório norte-americano Plexxikon, em pacientes com leucemia, tumores sólidos e artrite. Essa droga tem o mesmo mecanismo que a usada pelos pesquisadores para eliminar a micróglia dos camundongos que emagreceram drasticamente. Assim, esperam ver se há benefícios similares nos pacientes.

Perda de olfato faz emagrecer

Pablo Irimia, porta-voz da Sociedade Espanhola de Neurologia, ressalta que o estudo “permite estabelecer uma abordagem da obesidade bastante diferente do que se fez até agora”. O neurologista da Clínica Universitária de Navarra, que não participou do estudo, destaca: “Qualquer animal deixa de comer quando está saciado, embora haja mais alimento, mas isso não acontece com os humanos. Continuamos comendo apesar da saciedade.” E completa: “Isso se explica pelas diferenças no hipotálamo e, especificamente, nas células da micróglia, tal como indica o novo estudo.”

O aumento de peso se

deve não só às calorias

que você consome, mas

também a como o

organismo percebe essas

calorias

Segundo Valdearcos, conseguir uma nova droga que modere esse mecanismo tão conservado durante a evolução é especialmente necessário para as pessoas com graves problemas de obesidade, para as quais o exercício e a mudança de dieta não funcionam. No futuro, porém, a droga também poderia ser benéfica para a população em geral, nesses tempos de comida processada.

“Os hábitos alimentares de hoje não têm nada a ver com os de antes. Comemos demais. E nosso estilo de vida nos leva à comida rápida, que está modificando nosso cérebro, nos faz comer mais, pensar mais em comida e consumir alimentos mais viciantes”, diz o biólogo.

Outra pesquisa publicada na mesma revista oferece resultados mais surpreendentes sobre o tema. Cientistas da Universidade da Califórnia, Berkeley, mostraram que os camundongos sem olfato engordam menos que os que têm, mesmo comendo exatamente a mesma quantidade de comida gordurosa. Por outro lado, roedores com maior capacidade olfativa engordam mais.

Não se sabe o motivo do fenômeno, mas os pesquisadores acreditam que o cheiro da comida tenha um papel importante na maneira como o corpo queima as calorias. Sem olfato, é possível que o metabolismo queime mais energia em vez de armazená-la.

“O aumento de peso se deve não só às calorias que você consome, mas também a como o organismo percebe essas calorias”, explica Andrew Dillin, coautor do estudo, num comunicado da instituição. “Se pudermos replicar esses resultados em humanos, talvez possamos fazer uma droga que não interfira no olfato mas que bloqueie essa parte do metabolismo, o que seria impressionante.” Enquanto isso não for possível, à maioria de nós só restará comer melhor e mexer mais o corpo.

Por, NUÑO DOMÍNGUEZ

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