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Mentes brilhantes

Mentes brilhantes

Conheça as características do cérebro de pessoas com altas habilidades cognitivas, os superdotados- Por ERICH CASAGRANDE

 

Texto disponível em: http://dc.clicrbs.com.br/sc/nos/noticia/2016/07/mentes-brilhantes-conheca-as-caracteristicas-do-cerebro-de-pessoas-com-altas-habilidades-cognitivas-os-superdotados-6647719.html.  Acessado em 23/07/2016

 

Felipe Heusi Kossmann adorou Interestelar (Christopher Nolan, 2014). Segundo ele, é um filme que trata das possibilidades do universo de uma forma mais real, sem tanta dramaturgia como em Star Wars, por exemplo. Ele também gostou porque apresenta um assunto que já costuma pesquisar e pelo qual tem grande curiosidade: as teorias gravitacionais, a relatividade e a possibilidade de viajar no tempo. Logo, o gancho da conversa se perde e fica difícil de acompanhar o raciocínio da criança de 11 anos apaixonada por astronomia.

— Fiquei pensando se realmente é possível viajar através de um buraco negro, calcular e trabalhar com a dimensão do tempo de tal modo que possamos ir para o passado e para o futuro. Será que seríamos, então, sempre o resultado de uma ação futura de alguém que já viajou no tempo? — diz em uma conversa casual, que inclui fórmulas e citações de vetores.

Aos 11 anos, Felipe Kossmann dedica-se a estudar a Teoria da RelatividadeFoto: Marco Favero / Agencia RBS

Felipe é considerado uma criança com altas habilidades, condição conhecida popularmente como superdotada. Por enquanto, ele está no Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação (Naah/S), da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), a única instituição pública de Santa Catarina voltada a esse público. Mas ele sonha um dia em chegar à agência espacial americana, a Nasa.

Assim como Felipe, hoje 60 crianças e adolescentes estudam em atividades de suplementação acadêmica da FCEE para desenvolver melhor as próprias habilidades especiais. Um número pequeno diante da população do Estado, 6 milhões de pessoas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que de 3% a 5% da humanidade se encaixa no perfil de superdotação. Porcentagem que pode ser maior segundo a doutora em psicologia educacional em altas habilidades da Universidade de Brasília (UnB) Angela Virgolim.

— Esse dado leva em conta apenas aspectos acadêmicos e desempenho escolar. Se considerarmos todas as formas de altas habilidades como arte, esportes, música, triplicamos o número de pessoas com potencial — explica a pesquisadora.

Felipe chegou ao Naah/S depois que a família e professores perceberam que ele não era apenas nota 10 em todas as matérias no boletim. O pai Leomar Kossmann, subtenente do Exército e formado em sistemas de informações, reparou na intensidade que o filho se concentrava em assuntos que gostava.

— Às vezes, ele se concentra em um objetivo e parece que não volta mais. Não sente fome, sede, nada. Só quer entender aquele tema até o fim — conta Kossmann.

A identificação de que o filho ou o aluno tem uma habilidade acima do normal costuma levar algum tempo. Enquanto isso não acontece, as crianças ficam marcadas como estranhas, chatas, CDFs. Fabiana Fleck, mãe de Gabriel, 14 anos, por exemplo, diz que não conseguia acompanhar o raciocínio do filho em determinadas situações. Além disso, se surpreendia com alguns comportamentos dele, como passar horas envolvido em cálculos de matemática avançada ou quando, aos dois anos, ele preencheu o desenho de um patinho com bolinhas de papel amassadas com tanta perfeição que impressionou os professores.

— Ele começava a me contar um raciocínio. Falava e tentava me explicar o assunto. Ao final, me perguntava: “entendeu mãe?” Eu respondia: “Não, filho” — conta Fabiana.

Apesar dos sinais durante toda a infância, Gabriel só chegou à FCEE quando conquistou a medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática entre alunos de escolas públicas.

Medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática revelou o talento de Gabriel FleckFoto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Diferentes interesses, foco extremo em uma atividade, aprendizado rápido e perfeccionismo são algumas das características de Gabriel que costumam aparecer em pessoas com altas habilidades. Mas a generalização dessas características e a ideia de que superdotados são gênios que sabem de tudo são os primeiros erros que levam a ignorar mentes com potencial ampliado. Gabriel, por exemplo, já sabia fazer cálculos aos três anos, mas aprendeu a lere escrever apenas aos oito.

— É preciso uma avaliação minuciosa. Não só do que eles sabem, mas do que gostariam de saber. Como aprendem e como gostam de aprender. Há certas matérias em que o aluno é muito bom, mas não gosta e não quer saber melhor — explica a pesquisadora Angela Virgolim, da UnB.

A coordenadora do Naah/S, Andréia Panchiniak, acrescenta que a desinformação sobre o assunto leva pais a inibir o potencial dos filhos porque não querem que eles sejam diferentes.

— Há diversos casos em que a criança é inibida pelos pais para deixar de ler e estudar. Isso porque não querem que seus filhos sejam diferentes — afirma a coordenadora do Naah/S.

As pesquisas sobre a inteligência e a mente de quem tem altas habilidades estão longe de ser conclusivas, apesar dos avanços nas últimas décadas. Segundo Angela, exames neuropsicológicos são usados somente quando há suspeitas de dificuldades, distúrbios de estresse ou emocionais.

— Sabemos que as pessoas de altas habilidades fazem conexões neuronais mais rapidamente. Realizam mais sinapses e têm um desenvolvimento cerebral específico para certas atividades — diz.

A doutora pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) Elisabete Castelon Konkiewitz, coautora do livro Altas Habilidades, Inteligência e Criatividade: Uma Visão Multidisciplinar, publicado em 2014, indica que o desempenho do processamento cognitivo associado à inteligência depende da complexidade e eficiência das conexões entre os neurônios.

O mesmo livro também cita sujeitos com altas habilidades que teriam uma rede de neurônios com melhor transferência de informações entre diferentes unidades funcionais. Elisabete aborda ainda a questão genética e a importância das experiências de vida na formação das pessoas.

— São diferentes genes, possivelmente centenas, que causam predisposição para facilitar processos cognitivos. Mas isso tudo só fará sentido conforme as experiências vividas e estímulos. Desde a casa, escola, cuidados dos pais, esportes lazer, alimentação, sono, tudo pode influenciar na inteligência.

Outro problema apontado pelos pesquisadores é a falta de espaço adequado para que essas pessoas desenvolvam o próprio potencial. Uma vez que elas têm oportunidade de se desenvolver, as dificuldades seguem nas exigências para cumprir o currículo de ensino padrão e na aceitação das universidades.

— Diferente de outros países, não conseguimos alocar esses adolescentes em universidades, onde poderiam continuar o desenvolvimentos das suas especialidades. Há muita burocracia e muitas vezes é mais fácil migrar para outro lugar — completa Angela.

Há diversas leis, decretos, pareceres e resoluções na política de ensino nacional e estadual que contemplam alunos com altas habilidades. Desde 1996, a Lei no 9.394 estabelece “aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para superdotados”. Tópico que também está presente na lei estadual no 170 de 1998 sobre o Sistema Estadual de Educação de Santa Catarina.

Por fim, resolução do Conselho Estadual de Educação dispõe que o avanço nos cursos ou séries/anos poderá ocorrer sempre que se constatarem altas habilidades ou apropriação pessoal de conhecimento por parte do aluno igual ou superior a 70% dos conteúdos de todas as disciplinas em que ele estiver matriculado. Mas, na prática, esses processos são muito mais complicados.

— Acontece muito isso e a escola fica insegura de fazer esse processo. Mas a autonomia é da escola, que deve levar o melhor para aluno. Essa falta de conhecimento da legislação dificulta o desenvolvimento dos que estão acima da média — contextualiza a pedagoga Liliam Barcelos.

CINEMA
Filmes com pessoas com Altas Habilidades

O Jogo da Imitação (Morten Tyldum, 2015)
Conta a história real do criptoanalista inglês Alan Turing, considerado o pai da computação moderna. Turing e sua equipe desenvolvem o projeto Ultra para decifrar os códigos de guera nazistas, mas precisam lidar com difíceis decisões sobre quem e quando salvar. O filme ainda retrata a exclusão social vivida por Turing pela sua personalidade e escolhas sexuais.

Prenda-me se For Capaz (Steven Spielberg, 2002)
O filme é baseado em fatos reais e conta a história de Frank Abagnale. Jovem, inteligente, irreverente se passava por diferentes personagens, falsificava documentos e copiava cheques. De um jeito ou outro, sempre conseguia escapar do FBI. Retrata bem como as altas habilidades podem estar relacionadas a diferentes aspectos e como também podem levar para caminhos relacionados ao crime.

Uma mente brilhante (Ron Howard, 2001)
Conta a história de John Nash, um matemático que com sucesso em várias áreas e respeitado na academia. Um dos seus trabalhos mais famosos foi o doutorado em 1950, com a tese sobre os jogos não-cooperativos entre pessoas, que mais tarde seria chamado de Equilíbrio de Nash e é a base da Teoria dos Jogos. Mas o gênio da matemática também precisou resolver outros problemas após ser chamado para trabalhar no governo americano e foi diagnosticado como esquizofrênico.

Gênio Indomável (Morten Tyldum,1997)
Com Matt Damon e Robin Williams no elenco, o filme conta a história de um jovem com altas habilidades para a matemática e com atitudes rebeldes que o levaram a ter passagens pela polícia. Em uma noite de trabalho como faxineiro da universidade resolve um cálculo e acaba por ser descoberta como um gênio da matemática. Mas ele ainda precisa de conselhos de um especialista para evitar mais problemas.

Amadeus (Milos Forman, 1984)
O filme é sobre a loucura do personagem Salieri e sua obsessão com Mozart, ele não consegue entender por que Deus favoreceu Mozart e a inveja o toma. A história traz um pouco de humor, mas o enredo se sustenta no drama do personagem. A genialidade de Wolfgang Amadeus Mozart é bem retratada no filme.

Mentes brilhantes

Auscultadores “neurológicos” elevam rendimento dos atletas olímpicos

Os Halo Sport parecem um headset de som normalíssimo, mas “escondem” um original segredo: estimulam eletricamente o cérebro com o obetivo de melhorar a performance desportiva. E os atletas norte-americanos presentes nos jogos Rio 2016 este ano não os dispensam.

tek halo sport

O objetivo é auxiliar naquilo a que os criadores dos Halo Sport chamam de “treino inteligente”. Estes auscultadores “neurológicos” são capazes de estimular os impulsos elétricos nas regiões do cérebro que regem a aprendizagem relativa ao desporto e atividade física em geral, prometendo um desempenho superior ao normal.

Quem o garante é a equipa multidisciplinar da Halo Neuroscience, empresa norte-americana que se dedica ao desenvolvimento de neurotecnologia e que é composta por médicos, neurocientistas, engenheiros e designers. E, ao que parece, os atletas dos Estados Unidos que estão prontos para iniciar a competição nos Jogos Olímpicos deste ano no Rio de Janeiro, Brasil, já estão convencidos das “maravilhas” do treino neurológico que os Halo Sport proporcionam, supostamente.

Eles e também Michael Johnson, o emblemático corredor de provas de atletismo de velocidade, que faz questão que os atletas que frequentam o seu centro desportivo de alto rendimento utilizem este recurso tecnológico. Mas afinal como funciona a tecnologia neurológica dos Halo Sport?

Estes auscultadores incluem dois elétrodos que transmitem impulsos elétricos ao cérebro do utilizador durante o treino, que não pode ser de mais de 30 minutos por dia (o equipamento tem até uma funcionalidade que impede que a utilização seja superior à meia hora diária), e que deve até preceder a sessão de atividade física.

O atleta tem de humedecer ou molhar a zona da cabeça onde os Halo Sport “assentam” (à semelhança do que acontece com os sensores que integram as bandas de peito dos relógios cardíacos, por exemplo), para de seguida darem início à neuro-estimulação transcraniana, se quisermos ser um pouco mais técnicos.

Trata-se de uma técnica científica normalmente aplicada em casos clínicos de depressões e lesões cerebrais, por exemplo, sendo que a Halo Neuroscience coloca-a agora nuns auscultadores e combina o sistema com uma app para smartphone que ajuda a controlar o treino em exercícios baseados em repetições, principalmente.

Os testes efetuados pela equipa da Halo Neuroscience não demonstraram qualquer efeito secundário, pode constatar-se no site oficial da empresa, ao mesmo tempo que os resultados apresentados mostram que os atletas que usam os Halo Sports imediatamente antes da sessão de treino e competição duplicam a performance desportiva.

O case study dos atletas olímpicos norte-americanos na modalidade de saltos em ski ajudam a chegar a essas mesmas conclusões, denotando-se melhorias ao nível da atenção, concentração, equilíbrio e resistência dos atletas, como podemos ver pelo vídeo abaixo. Foram notados 13% de ganhos em propulsão e de 11% na suavidade e controlo, em apenas quatro semanas. A mesma tecnologia foi antes usada pelos militares dos Estados Unidos para melhorar a capacidade de tiro.

Os Halo Sport já podem ser reservados online e serão enviados a partir do outono, a troco de 649 dólares, cerca de 579 euros. Vejamos agora se os atletas que usam os Halo Sport regressam do Brasil com medalhas ao peito; se assim for e não for uma simples coincidência, estes auscultadores podem vir a provocar uma “revolução” no desporto e áreas afins.

Neurohackers querem mexer com seu cérebro

É o esconderijo da alma. O órgão do intelecto. A curva que une as correntes do mundo. São várias tentativas, mas nenhuma metáfora consegue definir o cérebro e seus 86 bilhões de neurônios que lançam continuamente impulsos eletroquímicos. Nem a própria ciência.

Decifrar a mente é a próxima missão humana. Achou que era povoar Marte? Antes de colonizar o planeta vermelho é preciso conhecer a massa cinzenta que vislumbrou o infinito, inventou os deuses e montou equações e espaçonaves. A tarefa é tão grande que só formando uma rede mundial de cérebros para conseguir.

Desse cenário surgiu o movimento neurohacking, uma associação independente de programadores, designers, cientistas, empreendedores, artistas e educadores para monitorar e estimular as ondas cerebrais. A ideia é aumentar o controle sobre o cérebro e criar uma interação direta e criativa entre o órgão e as máquinas.

Hoje, essa tecnologia ajuda desde estressados a meditar até paralíticos a se movimentar dentro de exoesqueletos. Aqui, hackear não é uma manipulação criminosa: o termo significa conhecer o funcionamento de algo a ponto de alterar suas funções.

Os eletrodos são grudados na testa com fita crepe. O macarrão de fios coloridos desce pela nuca e se conecta a uma placa. Dela, a informação vai para o computador, que exibe na tela as ondas cerebrais e as regiões do crânio acionadas na experiência.

Antes, uma cena como essa só acontecia em universidades ou grandes corporações. Agora, ela se repete em garagens, escritórios ou centros culturais. Aparelhos de EEG (eletroencefalograma) se simplificaram, podem ser comprados pela internet, e o custo deles está baixando a cada modelo novo lançado. Sua mente vai ser hackeada: operação concluída com sucesso!

Os post-its e as bancadas de trabalho estão por todo lado. As pessoas usam camisetas com frases espertas. O ambiente é de start-up. O estranho na cena é que nas cabeças há um festival de adereços. Um parece uma tiaraestilosa. O outro se assemelha a um capacete de ciclista.

O terceiro você juraria que é um kit de atendente de telemarketing, só que a haste do microfone parou no meio da testa do sujeito. Não há ninguém de avental ou máscara, e o ambiente está bem longe de um esterilizado laboratório. Mas é um lugar de pesquisa e experimentos cerebrais, onde luzes e carrinhos funcionam com o poder da mente (ou dos eletrodos).

Nos dois últimos anos, as comunidades de neurohackers surgiram nos Estados Unidos e Europa e já se espalharam pelo globo, misturando a mentalidade “faça você mesmo” (ou DIY, sigla pra “do it yourself”) com o modelo de desenvolvimento de código aberto.

O evento “Hack The Brain” (Hackeie o Cérebro, em tradução literal), que acontece desde 2014 na Holanda, teve neste ano sua primeira versão brasileira no Museu do Amanhã, no Rio, onde houve um hackathon (maratona de programação) com quatro equipes interdisciplinares que trabalharam por três dias para criar usos da tecnologia.

“Não lemos o pensamento, mas, só de descobrir os padrões de ondas cerebrais, já conseguimos controlar aparelhos”
Connor Russomano, desenvolvedor de eletroencefalograma para neurohacking

 

No Hack The Brain 2015, em Amsterdã, o estímulo cerebral de um neurohacker de Montréal (Canadá) movimentou a mão de um colega que estava no evento, graças à tecnologia que transforma ondas físicas em comandos digitais. Outra comunidade em rede é a NeuroTechX, que reúne entusiastas em 14 cidades tão distintas como Nova York (EUA), Tel Aviv (Israel) e Lima (Peru).

As informações obtidas por todas essas associações podem ser armazenadas, consultadas e analisadas por qualquer um em plataformas como a Cloudbrain.

Até agora, o dispositivo que mais se sintoniza com essa onda é o Open BCI (sigla que pode ser traduzida como “interface aberta de cérebro e computador”).

O equipamento, que inclui capacete feito em impressora 3D, sensores e placas, segue as regras do código aberto. Uma vaquinha online fez a start-up novaiorquina de Joel Murphy e seu aluno Conor Russomanno começar a produção em 2014.

O curioso é que Murphy é um professor de arte (focado em tecnologia, claro) e trabalhou em pesquisa bancada pelo Darpa, o centro de pesquisa do exército norte-americano. Ou seja, o Pentágono, também conhecido como Departamento de Defesa dos Estados Unidos, está por trás da criação dessa tecnologia, como aconteceu antes na concepção da internet.

Fonte: UOL notícias

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