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Você sabe o que são as gorduras do bem?

Você sabe o que são as gorduras do bem?

Alimentação focada em certas gorduras pode ser mais saudável que opções lights

De acordo com estudo apresentado pelo Fórum Nacional da Obesidade e o Public Health Collaboration do Reino Unido, uma alimentação rica de gorduras e menos carboidratos é mais saudável e pode ser mais eficiente para quem busca combater o sobrepeso e se manter longe de problemas cardiovasculares e diabetes.

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Isso mesmo, com base nos mais recentes artigos, a orientação adotada nas últimas décadas, focadas unicamente em diminuir o consumo diário de calorias, alimentos com baixo colesterol e redução de gorduras naturais, podem estar colaborando com o agravamento da epidemia de obesidade e diabetes tipo 2 mundialmente.

Segundo Dr. Rocha, especialista no tratamento de pacientes com diabetes e sobrepeso, as raízes destas doenças estão fortemente relacionadas com os hábitos alimentares e é necessária uma revisão das diretrizes nutricionais e de saúde pública para reverter o quadro. Segundo ele, as pessoas desconhecem os benefícios das gorduras do bem, consideradas altamente nutritivas e responsáveis pela sensação de saciedade.

“Durante muito tempo se reforçou que o problema dos alimentos seria a gordura. No entanto, é um tremendo engano, tendo em vista que as gorduras naturais, como as presentes nas carnes, peixes, ovos, sementes e oleoaginosas nutrem realmente as células, são melhor metabolizadas pelo organismo e proporcionam saciedade ao organismo”, destaca Rocha

Saíram do cotidiano os alimentos e gorduras naturais e entraram em cena com mais frequência os congelados, produtos lights e carboidratos refinados industrializados, como pães, bolos, biscoitos e barrinhas de cereais, não é mesmo?

O movimento de busca por uma alimentação inteligente e mais natural começa a ganhar mais força no Brasil. O tema também tem ganhado relevância com a evolução preocupante da obesidade no país. De acordo com dados divulgados pelos Ministério da Saúde, 52,5% da população adulta estão acima do peso e, dessa parcela, 17,9% estão obesos. Entre as principais orientações do órgão para reverter a situação, consumir mais frutas e verduras, e sempre que possível, preparar as refeições em casa – e dessa forma controlar a quantidade de óleo, sal, açúcar- estão em destaque.

“As pessoas precisam retomar o consumo das gorduras do bem e diminuir o consumo de industrializados. Acredito que a chave para uma mudança é começarmos a olhar para a alimentação não apenas quando preocupados com o tratamento de doenças, mas, principalmente, na prevenção delas. É essencial começar a conscientizar e educar as pessoas sobre importância dos hábitos alimentares” completa Rocha.

Dr. Patrick Rocha

Pessoas que leem livros todos os dias, vivem mais

Uma sessão diária de leitura com duração de 30 minutos. De acordo com um estudo da Universidade de Yale, dos Estados Unidos, é disso que você precisa para viver 23 meses a mais do que quem não tem o hábito de ler livros.

Os pesquisadores da escola de saúde pública da universidade concluíram que quanto mais as pessoas leem, mais chances elas têm de ter a vida prolongada – mas três horas e meia por semana foi o período considerado o suficiente para a medida tenha o impacto positivo prometido.

Os novos resultados corroboram com outros estudos que ligam a leitura de livros a ajudar a manter o cérebro ativo e saudável.

A leitura de romances “treina” as regiões de processamento de linguagem do cérebro, criando um efeito chamado “engajamento cognitivo”. Pesquisas da Universidade de Harvard e da Universidade de Emory (Atlanta) suportam essa teoria.

O estudo da Universidade de Yale envolveu 3.635 pessoas com idades de 50 anos ou mais. A expectativa de vida maior registra entre as pessoas que liam ou não foi avaliada com base na probabilidade de morte constatada por métodos que não foram publicamente detalhados.

Pessoas que liam mais de três horas e meia por semana apresentaram 23% menos chances de morte, enquanto as que liam até três horas e meia por semana apresentaram 17% menos chances de falecer do que as pessoas que não praticavam a leitura com regularidade.

Agora, os pesquisadores irão analisar os efeitos de livros de fição e não-fição, bem como dos livros digitais e dos audiolivros na saúde humana.

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Café e estômago vazio: uma combinação que pode ser perigosa

Uma das bebidas mais amadas pelos brasileiros é também um aliado à saúde. O café já é conhecido por proporcionar vantagens ao organismo como proteção ao DNA e prevenção de doenças através de seus antioxidantes.

Mais que um prazer e um bom favor prestado ao seu corpo, o café é uma mania para muitos que, quando não o tomam em determinadas situações, têm a impressão de que alguma coisa está faltando. O problema é que você pode estar ingerindo a bebida de uma forma que pode ser prejudicial.

Se seu café da manhã se resume somente a um cafezinho, trate de reformular seu cardápio. A bebida consumida de estômago vazio estimula a liberação de ácidos estomacais de modo rápido, propiciando o surgimento de problemas como a gastrite crônica.

Divulgação
Divulgação

Uma pesquisa publicada no periódico científico “New England Journal of Medicine” listou a série de problemas que esse hábito pode causar, tornando aquele golinho de café um problema ao invés de solução.

Quando o estômago vazio recebe o café, a digestão será estimulada e causará problemas ao processamento das proteínas. A má execução desse processo pode causar danos ao sistema digestivo, como irritação, inflamação intestinal e inchaço abdominal.

Essa prática, a longo prazo, pode trazer consequências bem mais graves, como perda de massa muscular, descamação da pele, inchaço nas pernas e perda de cabelos, além do comprometimento do bom funcionamento do sistema imunológico.

Beber café em jejum é mais grave do que parece. Essa mania aparentemente inofensiva pode ajudar a desenvolver doenças como a Acrodermatite Enteropática, a conhecida Doença de Chron e ainda a Retocolite Ulcerativa, enfermidades que acometem o sistema digestivo.

Como se já não bastasse, o café libera quase que de imediato o cortisol na corrente sanguínea, o denominado hormônio do estresse. Além de atrapalhar os ciclos do sono, as vontades súbitas por açúcar aumentam e podem prejudicar a sua dieta.

Portanto, a partir de agora, deixe o cafezinho ser acompanhado por algum lanche e garanta os benefícios reais da bebida.

(Com informações do site Diário de Biologia)

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Ouvir brigas dos pais, pode prejudicar o cérebro dos bebês

Até mesmo quando o bebê está dormindo ouvir a briga dos pais pode causar problemas, diz estudo

Foto: Getty Images

 

Se você acha que não tem problemas discutir com seu parceiro(a) na frente do bebê, afinal “ele é pequeno, não vai se lembrar”, melhor mudar de ideia. Uma pesquisa publicada na revista científica Psychological Science descobriu que ser exposto às brigas dos pais afeta a maneira como o cérebro do bebê processa estresse e se desenvolve.

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Expo Digitalks: netnografia e o comportamento humano na era digital

Vivemos na era digital e está cada vez mais complexo entender o comportamento dos consumidores nos canais digitais. Este foi o tema do Keynote “Netnografia e o comportamento humano na era digital”, conduzido por Valeria Brandini, Diretora e Professora Convidada, USP no Expo Fórum de Marketing Digital do Digitalks em São Paulo.

O consumidor como marca

Se eu consumo uma marca que comunica determinados valores eu estou comunicando esses valores também. Essa nova forma faz com que o consumidor se sinta uma marca e que comunique com os demais consumidores. É o “eu produto”. Como as pessoas escolhem suas bandas, eventos, grupos e marcas que constituem o seu perfil. “Será que elas realmente gostam daquelas coisas ou elas estão projetando a forma com que elas querem ser vistas? Isso não é um comportamento característica de uma marca?”, pontua Valeria.

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A era das causas no marketing

Não é mais possível engajar o consumidor a partir das características da personalização, é preciso ter algo acima, uma questão mais institucional. Na era das causas, a personalização migrou para valores institucionais. Tem marcas aderindo a muitas causas, mas acabam dando um tiro no pé. Uma causa exige determinada profundidade e legitimidade.

O consumidor como instituição social

Não estamos mais na época de colocar viagens e passeios ou coisas que compraram nas redes. Isso não valoriza mais a marca. As pessoas querem ser instituições sociais. Se uma pessoa consome uma marca que se diz sustentável, ela está incorporando essa causa também. Isso abre discussão para a Triangulação do diálogo entre consumidores por meio de causas e marcas. Por isso as pessoas precisam cuidar da sua imagem institucional.

Etnografia Digital: imersão nos códigos velados do consumidor e a tecnologia como base para a decodificação antropológica

Você precisa de metodologias de pesquisa que se aprofundem na cultura digital. Estamos falando de antropologia. É uma imersão nos códigos velados do consumidor. Cada comunicação do consumidor nas redes sociais tem um código, ele quer dizer alguma coisa.

A etnografia nada mais é que a Análise de todo o contexto que os diferentes clusters estão vivenciando. Não a análise do “porquê” é dito, mas de como é dito. A tecnologia dá possibilidade de te dar coisas em tempo real. Para ter estratégia é preciso ter um plano em longo prazo, não basta abrangência, é preciso ter tempo de análise.

Thick Data: abrangência + profundidade

Depois de mapear o código você precisa usar o relativismo antropológico para analisar os dados, são teorias sobre essa cultura de consumo em várias dimensões e com várias mudanças. “Com isso fazemos a “observação participante”. Não há netnografia sem imersão! Ao fazer a verificação de hipóteses você faz a interação com as pessoas”, explica Valéria.

Fonte: Digitalks

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Eu não vou com a sua cara !

Estudos, teses e pesquisas ligadas ao comportamento humano, comprovaram que, o que vemos (gostando ou não) nos outros, é reflexo de nossa própria personalidade. Por essa razão, existe uma máxima que diz o seguinte: quer conhecer uma pessoa? Peça a ela para falar sobre alguém.

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Você já ouviu (ou proferiu) frases do tipo: eu não fui com a cara desse sujeito; nossos santos não bateram; eu achei muito antipática; não me passou uma boa impressão; esse aí é pilantra, e tantas outras do gênero?

Tratam-se de frases construídas a partir de uma primeira (supostamente má) impressão que alguém teve de outrem, de observações baseadas em uma convivência à distância ou por comentários de terceiros, sem elementos robustos para formular uma opinião mais concreta e confiável.

Ao longo dos anos, em praticamente todos os lugares em que atuei como profissional da indústria ou da comunicação, ouvi diversas vezes declarações do tipo: confesso que eu não ia muito com a tua cara. Eu tinha medo (ou raiva, ou desconfiança) de ti. Agora, te conhecendo melhor, vi que eu estava enganado (a), sempre seguidas de um sorriso amarelo, como se pedissem desculpas (quando não pediam, de fato).

Foram tantas vezes que ouvi este tipo de comentário, que passei até a me divertir com eles. E também, a estudá-los, considerando a fonte de onde partiam (pessoas que passei a conhecer melhor, posteriormente).

Estudos, teses e pesquisas ligadas ao comportamento humano, comprovaram que, o que vemos (gostando ou não) nos outros, é reflexo de nossa própria personalidade. Por essa razão, existe uma máxima que diz: quer conhecer uma pessoa? Peça a ela para falar sobre alguém.

Basicamente, ao falarmos sobre outra pessoa – especialmente quando os “defeitos” são ressaltados – estamos, na verdade, falando sobre nós mesmos.

Trata-se da projeção psicológica, que atua na mente como uma espécie de mecanismo de defesa, para atribuir a outros, comportamentos, atributos, pensamentos e emoções que não gostamos de ter ou de expressar (consciente ou inconscientemente) em nós mesmos.

Para simplificar: quando não vamos com a cara de alguém, sem um motivo aparente e/ou coerente, estamos projetando nela, o que não gostamos em nós mesmos.

É mais fácil assim, não é? Você não vai se olhar no espelho e torcer a boca em repúdio, porque não aprova sua maneira de ser. É melhor transferir a ojeriza para outra pessoa. Até reduz a ansiedade, já que proporciona uma espécie de alívio ilusório do ainda bem que não sou assim.

Tem gente que até se orgulha: ah, quando o meu santo não bate com o de alguém, é batata.

Existe uma grande armadilha embutida nesta “habilidade”. Geralmente, quando se tem uma certeza absoluta, especialmente sem dados relevantes, a mente se fecha para que a afirmação não seja desmentida jamais, e busca-se elementos – até os mais estapafúrdios – para confirmar as suspeitas.

Ei Ivo, você viu o Bonifácio conversando com o Diretor na hora do almoço? Esse tipo não me engana. Percebi que era um puxa saco logo de cara. Gente assim, eu quero distância.

Naturalmente, algumas de nossas suspeitas podem se confirmar no futuro. Nem todas caem por terra e nos deixam envergonhados, com o rabo entre as pernas.

Entretanto, quantas vezes conhecemos pessoas, pelas quais sentimos afinidade instantânea, que de tão forte, até achamos que acertamos na mega sena da amizade (ou até da paixão, se for o caso) e, mais adiante, aquele anjo gentil e generoso, que perdeu o trem celestial e veio parar na sua vida, se mostra um diabrete mesquinho, egoísta e mentiroso. Tenho certeza que você – ou alguém que você conheça – já passou por essa desagradável experiência.

O importante neste texto é que fique claro o seguinte ponto: Independente da situação – se foi ou não com a cara, se o santo bateu ou não, se simpatizou ou não – não é conveniente formarmos opiniões baseadas em impressões vagas, “achismos” ou fatos isolados.

Todos nós temos experiências de vida, confirmando que dados superficiais e imprecisos, não podem ser fatores predominantes para gostar ou desgostar de quem quer que seja (inclua também os verbos acusar, desmerecer, enaltecer, execrar, adorar, desconfiar, confiar, etc.).

Se até os criminosos mais brutais têm direito à defesa, é correto afirmar que agimos de forma arbitrária quando acusamos, julgamos e condenamos sem piedade.

Imagine quantas pessoas interessantes excluímos de nosso convívio, só por uma impressão ou até por um comentário maldoso oriundo de sabe-se Deus de onde? E para quanta gente nós abrimos a porta de nossas vidas, e sofremos uma baita decepção?

O segredo para não cair neste erro é, dentro das possibilidades, procurar conhecer melhor, independente da impressão inicial ou das observações a distância. Isso quer dizer, obter mais informações, se aproximar (quando possível), conhecer os valores, as opiniões, etc., sem invadir a privacidade do outro, é claro.

Tudo bem, entendo que nem sempre é possível conhecer as pessoas suficientemente, para ter certeza se são ou não dignas de nosso convívio. A sua vizinha simpática, que sempre lhe dá bom dia com sorriso aberto, e lhe oferece deliciosos biscoitinhos caseiros todos os Domingos, pode ser uma psicopata, que se alimenta de sangue de criancinhas, raptadas nas comunidades carentes de sua cidade. Nunca se sabe.

Entretanto, com um pouquinho esforço, boa vontade e coração aberto, é possível evitar uma série de enganos e injustiças.

“Em muitos julgamentos mesquinhos, julgamos a nós mesmos na figura do outro”.  Autor Desconhecido

 

Marco Antonnio Ribeiro

Palestrante, Coach, Escritor, Blogger 

Você sabe o que são as gorduras do bem?

Mentes brilhantes

Conheça as características do cérebro de pessoas com altas habilidades cognitivas, os superdotados- Por ERICH CASAGRANDE

 

Texto disponível em: http://dc.clicrbs.com.br/sc/nos/noticia/2016/07/mentes-brilhantes-conheca-as-caracteristicas-do-cerebro-de-pessoas-com-altas-habilidades-cognitivas-os-superdotados-6647719.html.  Acessado em 23/07/2016

 

Felipe Heusi Kossmann adorou Interestelar (Christopher Nolan, 2014). Segundo ele, é um filme que trata das possibilidades do universo de uma forma mais real, sem tanta dramaturgia como em Star Wars, por exemplo. Ele também gostou porque apresenta um assunto que já costuma pesquisar e pelo qual tem grande curiosidade: as teorias gravitacionais, a relatividade e a possibilidade de viajar no tempo. Logo, o gancho da conversa se perde e fica difícil de acompanhar o raciocínio da criança de 11 anos apaixonada por astronomia.

— Fiquei pensando se realmente é possível viajar através de um buraco negro, calcular e trabalhar com a dimensão do tempo de tal modo que possamos ir para o passado e para o futuro. Será que seríamos, então, sempre o resultado de uma ação futura de alguém que já viajou no tempo? — diz em uma conversa casual, que inclui fórmulas e citações de vetores.

Aos 11 anos, Felipe Kossmann dedica-se a estudar a Teoria da RelatividadeFoto: Marco Favero / Agencia RBS

Felipe é considerado uma criança com altas habilidades, condição conhecida popularmente como superdotada. Por enquanto, ele está no Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação (Naah/S), da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), a única instituição pública de Santa Catarina voltada a esse público. Mas ele sonha um dia em chegar à agência espacial americana, a Nasa.

Assim como Felipe, hoje 60 crianças e adolescentes estudam em atividades de suplementação acadêmica da FCEE para desenvolver melhor as próprias habilidades especiais. Um número pequeno diante da população do Estado, 6 milhões de pessoas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que de 3% a 5% da humanidade se encaixa no perfil de superdotação. Porcentagem que pode ser maior segundo a doutora em psicologia educacional em altas habilidades da Universidade de Brasília (UnB) Angela Virgolim.

— Esse dado leva em conta apenas aspectos acadêmicos e desempenho escolar. Se considerarmos todas as formas de altas habilidades como arte, esportes, música, triplicamos o número de pessoas com potencial — explica a pesquisadora.

Felipe chegou ao Naah/S depois que a família e professores perceberam que ele não era apenas nota 10 em todas as matérias no boletim. O pai Leomar Kossmann, subtenente do Exército e formado em sistemas de informações, reparou na intensidade que o filho se concentrava em assuntos que gostava.

— Às vezes, ele se concentra em um objetivo e parece que não volta mais. Não sente fome, sede, nada. Só quer entender aquele tema até o fim — conta Kossmann.

A identificação de que o filho ou o aluno tem uma habilidade acima do normal costuma levar algum tempo. Enquanto isso não acontece, as crianças ficam marcadas como estranhas, chatas, CDFs. Fabiana Fleck, mãe de Gabriel, 14 anos, por exemplo, diz que não conseguia acompanhar o raciocínio do filho em determinadas situações. Além disso, se surpreendia com alguns comportamentos dele, como passar horas envolvido em cálculos de matemática avançada ou quando, aos dois anos, ele preencheu o desenho de um patinho com bolinhas de papel amassadas com tanta perfeição que impressionou os professores.

— Ele começava a me contar um raciocínio. Falava e tentava me explicar o assunto. Ao final, me perguntava: “entendeu mãe?” Eu respondia: “Não, filho” — conta Fabiana.

Apesar dos sinais durante toda a infância, Gabriel só chegou à FCEE quando conquistou a medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática entre alunos de escolas públicas.

Medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática revelou o talento de Gabriel FleckFoto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Diferentes interesses, foco extremo em uma atividade, aprendizado rápido e perfeccionismo são algumas das características de Gabriel que costumam aparecer em pessoas com altas habilidades. Mas a generalização dessas características e a ideia de que superdotados são gênios que sabem de tudo são os primeiros erros que levam a ignorar mentes com potencial ampliado. Gabriel, por exemplo, já sabia fazer cálculos aos três anos, mas aprendeu a lere escrever apenas aos oito.

— É preciso uma avaliação minuciosa. Não só do que eles sabem, mas do que gostariam de saber. Como aprendem e como gostam de aprender. Há certas matérias em que o aluno é muito bom, mas não gosta e não quer saber melhor — explica a pesquisadora Angela Virgolim, da UnB.

A coordenadora do Naah/S, Andréia Panchiniak, acrescenta que a desinformação sobre o assunto leva pais a inibir o potencial dos filhos porque não querem que eles sejam diferentes.

— Há diversos casos em que a criança é inibida pelos pais para deixar de ler e estudar. Isso porque não querem que seus filhos sejam diferentes — afirma a coordenadora do Naah/S.

As pesquisas sobre a inteligência e a mente de quem tem altas habilidades estão longe de ser conclusivas, apesar dos avanços nas últimas décadas. Segundo Angela, exames neuropsicológicos são usados somente quando há suspeitas de dificuldades, distúrbios de estresse ou emocionais.

— Sabemos que as pessoas de altas habilidades fazem conexões neuronais mais rapidamente. Realizam mais sinapses e têm um desenvolvimento cerebral específico para certas atividades — diz.

A doutora pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) Elisabete Castelon Konkiewitz, coautora do livro Altas Habilidades, Inteligência e Criatividade: Uma Visão Multidisciplinar, publicado em 2014, indica que o desempenho do processamento cognitivo associado à inteligência depende da complexidade e eficiência das conexões entre os neurônios.

O mesmo livro também cita sujeitos com altas habilidades que teriam uma rede de neurônios com melhor transferência de informações entre diferentes unidades funcionais. Elisabete aborda ainda a questão genética e a importância das experiências de vida na formação das pessoas.

— São diferentes genes, possivelmente centenas, que causam predisposição para facilitar processos cognitivos. Mas isso tudo só fará sentido conforme as experiências vividas e estímulos. Desde a casa, escola, cuidados dos pais, esportes lazer, alimentação, sono, tudo pode influenciar na inteligência.

Outro problema apontado pelos pesquisadores é a falta de espaço adequado para que essas pessoas desenvolvam o próprio potencial. Uma vez que elas têm oportunidade de se desenvolver, as dificuldades seguem nas exigências para cumprir o currículo de ensino padrão e na aceitação das universidades.

— Diferente de outros países, não conseguimos alocar esses adolescentes em universidades, onde poderiam continuar o desenvolvimentos das suas especialidades. Há muita burocracia e muitas vezes é mais fácil migrar para outro lugar — completa Angela.

Há diversas leis, decretos, pareceres e resoluções na política de ensino nacional e estadual que contemplam alunos com altas habilidades. Desde 1996, a Lei no 9.394 estabelece “aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para superdotados”. Tópico que também está presente na lei estadual no 170 de 1998 sobre o Sistema Estadual de Educação de Santa Catarina.

Por fim, resolução do Conselho Estadual de Educação dispõe que o avanço nos cursos ou séries/anos poderá ocorrer sempre que se constatarem altas habilidades ou apropriação pessoal de conhecimento por parte do aluno igual ou superior a 70% dos conteúdos de todas as disciplinas em que ele estiver matriculado. Mas, na prática, esses processos são muito mais complicados.

— Acontece muito isso e a escola fica insegura de fazer esse processo. Mas a autonomia é da escola, que deve levar o melhor para aluno. Essa falta de conhecimento da legislação dificulta o desenvolvimento dos que estão acima da média — contextualiza a pedagoga Liliam Barcelos.

CINEMA
Filmes com pessoas com Altas Habilidades

O Jogo da Imitação (Morten Tyldum, 2015)
Conta a história real do criptoanalista inglês Alan Turing, considerado o pai da computação moderna. Turing e sua equipe desenvolvem o projeto Ultra para decifrar os códigos de guera nazistas, mas precisam lidar com difíceis decisões sobre quem e quando salvar. O filme ainda retrata a exclusão social vivida por Turing pela sua personalidade e escolhas sexuais.

Prenda-me se For Capaz (Steven Spielberg, 2002)
O filme é baseado em fatos reais e conta a história de Frank Abagnale. Jovem, inteligente, irreverente se passava por diferentes personagens, falsificava documentos e copiava cheques. De um jeito ou outro, sempre conseguia escapar do FBI. Retrata bem como as altas habilidades podem estar relacionadas a diferentes aspectos e como também podem levar para caminhos relacionados ao crime.

Uma mente brilhante (Ron Howard, 2001)
Conta a história de John Nash, um matemático que com sucesso em várias áreas e respeitado na academia. Um dos seus trabalhos mais famosos foi o doutorado em 1950, com a tese sobre os jogos não-cooperativos entre pessoas, que mais tarde seria chamado de Equilíbrio de Nash e é a base da Teoria dos Jogos. Mas o gênio da matemática também precisou resolver outros problemas após ser chamado para trabalhar no governo americano e foi diagnosticado como esquizofrênico.

Gênio Indomável (Morten Tyldum,1997)
Com Matt Damon e Robin Williams no elenco, o filme conta a história de um jovem com altas habilidades para a matemática e com atitudes rebeldes que o levaram a ter passagens pela polícia. Em uma noite de trabalho como faxineiro da universidade resolve um cálculo e acaba por ser descoberta como um gênio da matemática. Mas ele ainda precisa de conselhos de um especialista para evitar mais problemas.

Amadeus (Milos Forman, 1984)
O filme é sobre a loucura do personagem Salieri e sua obsessão com Mozart, ele não consegue entender por que Deus favoreceu Mozart e a inveja o toma. A história traz um pouco de humor, mas o enredo se sustenta no drama do personagem. A genialidade de Wolfgang Amadeus Mozart é bem retratada no filme.

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Descobrimos um jeito rápido e barato de manipular o DNA humano. Até aonde devemos ir?

Cientistas chineses testarão, em humanos, uma técnica revolucionária de manipulação genética. A Crispr/Cas-9 pode nos ajudar a eliminar males genéticos, curar a aids… ou decidir a cor dos olhos de uma criança

 

Uma representação gráfica do genoma humano - uma nova técnica, a Crispr/Cas-9, permite fazer alterações precisas no código genético dos seres vivos (Foto: Mario Tama / Equipa/ Getty Images)

Houve um tempo, no início dos anos 2000, em que a professora Lygia da Veiga Pereira era figura recorrente no Senado Federal, em Brasília. Àquela altura, Lygia – geneticista e, hoje, líder doLaboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias da Universidade de São Paulo (USP) – estava entre os cientistas brasileiros que assumiram a função de explicar a políticos, sociólogos e a uma infinidade de outros profissionais o que eram e para que serviam as células-tronco embrionárias humanas. Era uma polêmica que quicava pelo mundo desde 1998, quando um grupo de pesquisadores americanos descobrira como obter essas células por meio da destruição de blastocistos – embriões humanos com poucos dias de desenvolvimento, obtidos pela fertilização in vitro e congelados em clínicas especializadas.  A comunidade científica estava empolgada com as possibilidades abertas pelo novo conhecimento. Células-tronco embrionárias são capazes de se transformar em qualquer um dos outros 216 tipos de células do corpo humano – e havia esperanças de que seria possível usá-las paraestudar doenças ainda incuráveis, ou para desenvolver tratamentos para males aflitivos. A necessidade de destruir embriões humanos criava opositores à ideia. Era um daqueles momentos em que o avanço da ciência se chocava contra noções de moralidade, e cabia aos cientistas ajudar o restante da sociedade a decidir como usar o conhecimento novo. Diante das comissões de senadores, Lygia e seus colegas tentavam cumprir esse papel.

O laboratório de Lygia ocupa o canto direito do segundo andar do prédio do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. É uma sala com pé-direito alto e janelas amplas, por onde computadores, livros e toda uma sorte de substâncias em potinhos se espalham de maneira aparentemente confusa. Foi ali que, em 2008, Lygia criou a primeira linhagem brasileira de células-tronco embrionárias. Antes delas, quem quisesse fazer pesquisas na área tinha de encomendar células do exterior: “Eu tive medo de ser apedrejada”, diz Lygia, em tom de caçoada, sentada a sua mesa num começo de tarde calorento de agosto. Não houve retaliação – em 2005, a Lei de Biossegurança estabelecera as regras que cabiam às pesquisas com células-tronco. “Acho que tínhamos informado bem as pessoas”, diz Lygia. “Ou então o pessoal do contra não teve coragem de falar nada.” Depois de muito discutir, a sociedade chegara a um acordo quanto ao que fazer com a ciência, e quais limites eram razoáveis. A clonagem humana, por exemplo, foi vetada, mas a lei permitiu que embriões que não seriam usados em procedimentos de fertilização in vitro poderiam ser doados para estudos.

Hoje, Lygia e seus alunos usam as células-tronco que ela produziu para estudar uma síndrome genética rara chamada síndrome de Marfan. Para fazer isso, precisam alterar o DNA de células saudáveis, para torná-las mutantes com dificuldades para produzir uma proteína chamada fibrilina – justamente a substância que falta a quem sofre de Marfan. Para fazer um corte no DNA das células, e arrancar dali o gene que interessa, Lygia usa uma espécie de tesoura molecular chamada Crispr/ Cas-9. Trata-se de uma técnica nova, que permite aos cientistas alterar o código genético com facilidade e precisão. Trata-se também de um avanço sem precedentes na capacidade humana de manipular o genoma – o próprio e o de outras espécies.

Desde que as primeiras notícias sobre a nova técnica começaram a circular entre os cientistas, em meados de 2012, a Crispr é vista com o entusiasmo e o temor das grandes descobertas. Somos capazes demanipular o genoma desde meados da década de 1970. Mas nunca fomos tão bons nisso quanto somos hoje: “Comecei a estudar Marfan alterando o DNA de ratinhos”, diz Lygia. O processo era feito por uma técnica antiga, chamada recombinação homóloga. Apenas 1% das tentativas de alterar o DNA das células, no máximo, resultavam em sucesso. Hoje, com a Crispr, a taxa de sucesso gira em torno de 30%. Ela também é mais veloz: permite fazer em um mês aquilo que técnicas anteriores fariam em um ano. E é mais barata.

Os cientistas já usaram a Crispr para alterar o DNA de mosquitos – e têm esperanças de que, um dia, a técnica permita eliminar espécies transmissoras de doenças, como o Aedes aegypti. Já usaram-na para mudar o genoma de porcos – e tentar eliminar os genes que causariam rejeição caso órgãos de porcos fossem transplantados em corpos humanos. E, em 2014, mostraram que ela era capaz de alterar células humanas.

No final de julho, cientistas da Universidade de Sichuan, na China, anunciaram que usarão a Crispr para tratar tumores em humanos. Os cientistas chineses, liderados pelo oncologista Lu You, vão extrair células do sistema imunológico de dez voluntários que sofram de câncer de pulmão, e que já não respondem ao tratamento. Em laboratório, os cientistas usarão a Crispr/Cas-9 para inativar um gene que produz a molécula PD-1. A PD-1 é o ponto fraco das células imunológicas – localizada na superfície das células, ela serve de porta de entrada para o tumor, que produz substâncias capazes de invadir a célula e inativá-la. Os cientistas esperam que, ao eliminá-la, as células imunológicas serão capazes de combater a doença – e vencer. Depois de modificadas em laboratório, as células serão reintroduzidas no corpo dos pacientes, como se fossem uma espécie de soro contra uma doença.  A quantidade desse soro a ser administrada varia a cada paciente – de modo que os cientistas poderão estudar qual a eficácia do tratamento e quais os limites de segurança. Espera-se que elas se tornem capazes de curar o tumor e, depois de cumprir essa função, desapareçam no organismo. Os testes em humanos devem começar até o final de agosto. Em maio, cientistas da Universidade da Pensilvania, nos Estados Unidos, anunciaram que farão algo semelhante. Seus experimentos, já aprovados por uma comissão de ética federal americana, deverão começar até o fim do ano – ainda precisam passar pela aprovação de comissões de ética internas das universidades onde os testes deverão acontecer, na Califórnia e no Texas. Nesse caso, a ideia é tratar três diferentes tipos de câncer em 18 pacientes: mieloma, melanoma e sarcoma. Segundo o líder do estudo, o professor Edward Stadtmauer, da Universidade da Pensilvânia, esse primeiro teste deve avaliar se é seguro usar Crispr em humanos – muito mais do que determinar se o tratamento é eficiente ou não. Esses serão os primeiros testes da Crispr em humanos.  Se bem-sucedidos, podem abrir caminho para o uso da técnica no desenvolvimento de terapias para tratar doenças variadas.

Especialistas do mundo todo têm esperanças de que, daqui a não muito tempo, seremos capazes de usar a Crispr para eliminar os genes que tornam nossas células vulneráveis ao vírus HIV e curar aids. Ou tratar a cegueira provocada por mutações. Ou editar o genoma de um embrião humano e eliminar os genes que causam Alzheimer precoce. É nesse ponto que o entusiasmo vira temor. Mudar o genoma de um embrião significa causar alterações que ele, ao crescer, transmitirá a seus descendentes: “Estamos falando de editar o genoma de toda a humanidade”, diz Lygia. E não sabemos como prever os impactos disso. Ou mesmo se devemos levar essa ideia adiante. Sabemos apenas que, daqui a não muito tempo, essa possibilidade existirá. Será mais um daqueles momentos, como no caso das células-tronco, em que o avanço da ciência vai esbarrar em questões morais. E teremos de decidir que usos queremos dar a esses conhecimentos.

A história da Crispr/Cas-9

O desenvolvimento da Crispr envolveu o trabalho de muita gente, mas é uma história geralmente contada pela perspectiva de duas de suas protagonistas: a americana Jennifer Doudna, professora daUniversidade da Califórnia, e a francesa Emmanuelle Charpentier, que hoje dirige o Instituto Max Planck de Biologia da Infecção em Berlim. As duas se encontraram pela primeira vez em 2011, no intervalo de uma conferência sobre microbiologia em Porto Rico. Nenhuma das duas, àquela altura, planejava desenvolver novas formas de manipular o DNA. Doudna, uma bioquímica formada por Harvard, é especialista em RNA – uma molécula complementar ao DNA, e formada por apenas uma fita simples de bases de nitrogênio. Charpentier é microbiologista e, em 2011, tentava desvendar os mecanismos biológicos de uma bactéria chamada Streptococcus pyogenes, um patógeno potencialmente mortal para seres humanos, responsável por doenças como faringite bacteriana e escarlatina. Ambas se dedicavam a um ramo de pesquisas conhecido como ciência básica – aquela que gera conhecimentos sem a ambição de encontrar aplicações práticas imediatas.

Anos antes, cientistas de todo o mundo tinham começado a estudar um sistema de defesa usado por bactérias para se proteger contra ataques de vírus. O DNA das bactérias, como o nosso, é formado por bases de nitrogênio que os cientistas representam por meio de letras: há Cs, Ts, As e Gs.  Quando agrupadas, essas letras são capazes deproduzir proteínas importantes para o funcionamento das células. Ao estudar bactérias de diferentes tipos, os cientistas haviam percebido que, em meio ao DNA bacteriano, havia sequências de bases repetitivas que formavam palíndromos – eram iguais mesmo quando lidas de trás para frente. Elas, aparentemente, não tinham nenhuma função. Não eram responsáveis por atividades dentro da célula, não produziam proteínas. Entre essas sequências repetitivas,batizadas de Crispr, havia fragmentos de material genético viral. Eram vestígios de antigas infecções sofridas pelas bactérias e serviam como uma espécie de memória imunológica – caso um vírus tentasse invadir a célula, aqueles fragmentos ajudavam a bactéria a reconhecer o invasor e combatê-lo.

As Streptococcus pyogenes estudadas por Charpentier contavam com esse mecanismo, e faziam sua defesa contra o vírus usando uma enzima que ela batizara de Csn1 – mais tarde rebatizada como Cas-9. Em Porto Rico, Charpentier falou a Doudna sobre como, com ajuda da Cas-9, suas bactérias eram capazes de localizar trechos específicos do material genético de vírus invasores e cortá-los no ponto desejado. Ela queria ajuda para estudar esse processo. Doudna se interessou.

Em junho do ano seguinte, Doudna e Charpentier publicaram um artigo na revista científica Science, descrevendo como haviam dominado aquele sistema de defesa bacteriano. Elas descobriram que podiam emulá-lo em laboratório para cortar DNA. Para isso, bastava criar uma molécula chamada RNA guia, capaz de reconhecer trechos específicos de DNA. Esse RNA guia deve ser associado a Cas-9, que funciona como uma espécie de tesoura. Com esse conjunto, os cientistas são capazes de cortar genes defeituosos para inativá-los. Ou mesmo substituir genes com mutações deletérias por versões saudáveis.

Como a Crispr funciona (Foto: Redação Época)

 

Doudna e Charpentier mostraram isso ao editar DNA em um tubo de ensaio. Seu artigo despertou uma corrida para determinar quem seria o primeiro a fazer o mesmo em células de organismos vivos – de plantas, mamíferos e humanos. Em janeiro de 2013, o professor Feng Zhang, do MIT, publicou um artigo na Science mostrando que era capaz de usar Crispr para alterar células humanas. Doudna e Charpentier fariam o mesmo algumas semanas depois. As duas equipes entraram em rota de colisão, ambas disputando a paternidade da nova técnica. A briga precipitou uma guerra pela patente da Crispr/Cas-9 entre a Universidade da Califórnia e o MIT, duas das maiores universidades do mundo.

As expectativas em relação à Crispr são tão altas que já há empresas privadas criadas com o objetivo de usá-la con fins terapêuticos – uma aplicação que só agora começa a ser testada, de maneira controlada, em universidades. Em 2015, a revista Science elegeu a Crispr o principal avanço científico daquele ano. Doudna e Charpentier receberam o prêmio das mãos da atriz Cameron Diaz, em uma cerimônia que misturava a elite da ciência a astros de Hollywood. Métodos de edição gênica do passado já foram agraciados com o prêmio Nobel – e espera-se que, dentro em breve, Doudna e Charpentier recebam o seu.

Quais os limites aceitáveis?

A Crispr pode ter elevado Doudna à elite científica global, mas também a colocou em um posição desconfortável. “Há cerca de 20 meses, eu comecei a ter problemas para dormir”, escreveu ela em dezembro passado em um artigo na revista Nature. Desde que publicou aquele artigo em 2012, Doudna se vê forçada a participar de discussões éticas com as quais ela – que passou a vida trabalhando com moléculas, e não com células vivas – não tinha familiaridade. Seu medo, compartilhado por cientistas em outras partes do mundo, é de que a técnica seja um dia usada para alterar o DNA de embriões viáveis – uma ambição para a qual a ciência e a sociedade ainda não estão suficientemente maduras: “Meu maior medo é acordar e ler notícias sobre o nascimento do ‘primeiro bebê Crispr’”, disse Doudna durante uma entrevista à Science.

Esse é um temor tão antigo quanto nossa capacidade de fazer alterações genômicas. Em 1975, um grupo de cientistas de diferentes áreas se reuniu na Califórnia, no Centro de Convenções Asilomar, para discutir as implicações do uso do DNA recombinante – a primeira técnica desenvolvida para alter o código genético de seres vivos. O DNA recombinante permitia aos cientistas misturar genes de diferentes espécies para criar organismos geneticamente modificados. A eficácia dessa técnica empalidece quando comparada aos métodos disponíveis atualmente para fazer o mesmo. Mesmo assim, desde então, persiste o receio de que, um dia, algum cientista experimente provocar alterações genéticas em humanos, capazes de se propagar pelos descendentes desse indivíduo. Os cientistas em Asilomar chegaram ao consenso de que não deveríamos alterar embriões humanos, nem tampouco óvulos ou espermatozoides. Pelo menos não antes de conhecermos – e controlarmos – todas as possíveis consequências.

Em dezembro de 2015, Doudna ajudou a reunir cientistas dos Estados Unidos, da Europa e da China em uma nova conferência em Washington, para discutir os limites cabíveis à Crispr. Em abril daquele ano, pesquisadores chineses haviam usado a Crispr/Cas-9 para editar embriões humanos não viáveis. A técnica não tinha sido suficientemente refinada para essa tarefa e resultou em alterações indesejadas. O caso ajudou os cientistas em Washington a apoiar que experimentos com a Crispr não sejam realizados em embriões viáveis pelos próximos anos. Para evitar que erros genéticos se propaguem. Experiências em embriões não viáveis estão autorizadas em alguns países, como na China e no Reino Unido.

Esse tipo de cautela, em parte, é uma forma de a ciência admitir as próprias limitações. Apesar de eficiente ao cortar e colar genes, a ciência moderna ainda não conhece perfeitamente as funções de cada segmento do genoma humano. Há genes que codificam mais de uma proteína e executam funções ainda pouco entendidas; há partes do DNA que, até pouco tempo, pensávamos não ter função alguma – e que, hoje sabemos, são importantes para o bom funcionamento da célula. Usar a Crispr para alterar trechos dessa sequência delicada pode resultar em consequências inesperadas. Na tentativa de curar um mal genético, os cientistas podem provocar danos ainda maiores. Além disso, há casos em que a Crispr erra o alvo – tentativas de alterar um gene resultam em alterações em vários outros.

Desde o primeiro artigo de 2012, a Crispr evoluiu. Ainda precisa ser aperfeiçoada. Tudo indica que será: “As ferramentas de modificação genética estão ficando cada vez mais robustas”, diz Lygia da Veiga Pereira, que pesquisa células-tronco na USP. “Talvez, um dia, esse temor de que o tiro saia pela culatra não exista mais. E aí, o que vamos querer fazer?” Quando a ciência tiver se desenvolvido a esse ponto, quando o método for a prova de erros e entendermos melhor o próprio genoma, surgirá um novo problema – como definir quais alterações são razoáveis e quais jamais devem ser feitas? “Para a maioria das pessoas, pode parecer fácil dizer que devemos autorizar a edição genômica em embriões humanos para prevenir doenças, mas que não devemos fazer o mesmo para determinar a cor dos olhos e a altura”, diz Eduardo Seclen, pesquisador do departamento de microbiologia da Universidade do Sul da Califórnia. Seclen usa a Crispr para estudar formas de desenvolver terapias contra o HIV. “O problema é que existem áreas cinzentas. O que fazer, por exemplo, no caso em que uma criança morrerá vítima de um defeito genético a menos que os cientistas ajudem a conceber um irmão saudável para realizar um transplante?” É um dilema digno da ficção. A conclusão virá de uma conversa difícil entre a comunidade científica e o restante da sociedade. Do mesmo tipo que já tivemos de travar no passado, quando a sociedade decidiu que era razoável conceber crianças por fertilização in vitro. Ou quando permitiu a utilização de células-tronco embrionárias humanas em pesquisas.

No laboratório de Lygia, é a bióloga Juliana Borsoi que se encarrega de monitorar as células-tronco modificadas pela Crispr. Às vezes, Juliana fala do próprio experimento como quem conta histórias sobre uma pessoa. Diz que as células têm de ser mantidas em ambiente esterilizado, “porque elas não gostam muito de receber antibióticos”. E que precisam ser observadas com cuidado, porque se reproduz muito rapidamente. Juliana e Lygia usaram a Crispr para apagar dessas células o gene responsável por produzir a proteína fibrilina. Seu objetivo, com isso, não é criar uma terapia contra a síndrome de Marfan. Ao menos, não de início. O que elas querem, com a Crispr, é entender como o corpo funciona. “Esse é o roteiro usual da biologia molecular”, diz Juliana, enquanto observa suas células ao microscópio – pontinhos negros agrupados em um círculo. “Você exclui um gene para ver o que acontece. Para tentar determinar qual a função dele na célula.” Apesar do receio de que a Crispr seja usada para desenhar bebês perfeitos – que talvez carreguem alterações genéticas perigosas – a técnica serve hoje como uma ferramenta de investigação. Ajuda os cientistas a entender melhor como funciona o mundo, mesmo que esse conhecimento não gere consequências imediatas. É uma aplicação nobre, e ainda distante dos possíveis usos polêmicos que a técnica pode ter. Os embriões geneticamente modificados continuam, por enquanto, reservados para um futuro que se aproxima veloz. Por ora, podemos adiar as conversas complicadas.

RAFAEL CISCATI

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